A economia portuguesa já estará estagnada ou mesmo em contração e as exportações de mercadorias, um dos grandes motores da retoma portuguesa (juntamente com o turismo), registaram, nos nove meses que vão de janeiro a setembro, a primeira quebra homóloga (face a janeiro-setembro de 2022) desde o tempo da pandemia, mostram os novos dados disponíveis - o indicador diário de atividade do Banco de Portugal (BdP) e o comércio internacional do Instituto Nacional de Estatística (INE) - analisados pelo Dinheiro Vivo (DV)..Lá fora, os sinais também são pouco animadores, com os principais indicadores avançados a confirmarem uma recessão já longa de três trimestres na Alemanha e, ato contínuo, problemas sérios para a Zona Euro como um todo, tendo em conta que a economia alemã é a maior do conjunto da moeda única..Esta terça-feira, o Eurostat divulgará dados preliminares para o Produto Interno Bruto (PIB) do 3.º trimestre e a inflação de outubro..Mas, como referido, o indicador diário de atividade do banco central português aponta para um crescimento real do PIB que estará já abaixo de 1%, segundo a média móvel semanal apurada até ao dia 19 de outubro, naquele que é o ritmo mais fraco desde julho e que traduz um abrandamento muito acentuado desde o início deste mês de outubro..Só para se ter um termo de referência, a atividade ainda conseguiu crescer mais de 7% no início deste mês..No entanto, os dados diários posteriores a 19 de outubro mostram que a evolução da economia portuguesa já entrou, ainda que brevemente, em território negativo, segundo o Banco de Portugal..Este arrefecimento acentuado do PIB é consistente com a mais recente estimativa do banco governado por Mário Centeno, que aponta para uma queda real da atividade no 3.º trimestre, na ordem dos 0,1% (em cadeia, entre o segundo e o terceiro trimestre), eventualmente um pouco mais..Antes disso, anunciou o INE, a economia portuguesa cresceu 2,3% em termos homólogos, mas já ficou estagnada (0%) em cadeia, no segundo trimestre..A componente do PIB que melhor reflete as condições decisivas que pesam sobre uma pequena economia aberta, como a portuguesa, é justamente o ritmo das exportações. Para mais quando o peso destas (bens e serviços) representa já cerca de 50% da riqueza..No novo boletim econoomico de outubro, o BdP refere que "após uma evolução favorável no início de 2023, as exportações terão registado uma contração no segundo e terceiro trimestres, refletindo a fraqueza da procura externa, a redução das receitas de turismo em termos reais e estrangulamentos temporários na produção automóvel"..Vendas ao exterior param de crescer.Ontem, o INE, na estimativa rápida do comércio internacional de bens até ao final de setembro 3.º trimestre), deu conta da primeira contração em valor (nominal) desde o tempo da pandemia, quando muitos dos fluxos de comércio foram interrompidos devido aos confinamentos.."No 3º trimestre de 2023, a estimativa rápida do comércio internacional de bens aponta para diminuições, em termos nominais, de 8,8% e 12,3% nas exportações e importações, respetivamente, em relação ao período homólogo", avançou o INE.."O decréscimo nas transações de bens ocorre pelo segundo trimestre consecutivo e acentuou-se face ao trimestre anterior, em que se registaram variações homólogas de -4,7% nas exportações e -6,4% nas importações", acrescentou..Segundo cálculos do DV, daquela quebra de quase 9% nas exportações do 3.º trimestre decorre que o valor faturado pelos exportadores portugueses nos primeiros nove meses deste ano terá recuado cerca de 0,7% face a igual período de 2022..Significa isto que é a primeira vez, desde o tempo mais negro da pandemia (início de 2021, quando a mortalidade atingiu um máximo), que as exportações de bens registam uma contração..É preciso recuar até aos primeiros dois meses desse ano para encontrar um recuo nas vendas de Portugal ao exterior. Nessa altura, a quebra foi de 3,9%..Como referido, a economia está a fraquejar. O embate da inflação trouxe consigo juros elevadíssimos e o consumo e o investimento estão a dar de si..As exportações também, porque os grandes clientes de Portugal, a maior parte deles na Europa, estão igualmente em dificuldades..No Boletim Económico, o BdP refere que "após o dinamismo no início de 2023, a atividade terá estagnado no 2.º e 3.º trimestres e deverá manter um crescimento fraco até final do ano"..Nesse novo estudo, o BdP indica que a variação em cadeia do PIB (entre o 2.º e 3.º trimestre) já deve ter sido negativa.."O abrandamento em Portugal reflete o menor dinamismo nos principais parceiros comerciais, os efeitos cumulativos da inflação e a maior restritividade da política monetária, que implicou um agravamento das condições financeiras na área do euro e em Portugal", ilustrou o Banco..Europa arrefece.O embate da inflação e o aperto histórico e severo nos juros da Zona Euro continua e hoje o Eurostat pode avançar com mais más notícias..No final de 2022, a área da moeda única cedeu pela primeira vez, com um recuo no quarto trimestre de 0,1% (em cadeia), seguindo-se depois dois trimestres consecutivos de quase estagnação (0,1% em ambos)..Segundo a análise semana do gabinete de estudos do BPI, "o abrandamento económico na Zona Euro intensifica-se no início no quarto trimestre"..O mais recente inquérito PMI, um levantamento feito junto de milhares de gestores de compras de empresas de referência europeias, indica que "o sentimento empresarial na Zona Euro voltou a cair em outubro e mantém-se em valores compatíveis com a diminuição da atividade devido à intensificação da crise na indústria transformadora e à progressiva deterioração no setor dos serviços", dizem os economistas do BPI Research.."Tanto na Alemanha como em França, a atividade revela-se bastante debilitada, embora a deterioração desde o verão tenha sido mais intensa na Alemanha, onde o índice Ifo [confiança empresarial], aliás, encontra-se ainda em níveis compatíveis com uma recessão"..Assim, "estes dados aumentam o risco de vermos o PIB da Zona Euro cair até ao final do ano", considera a equipa de research.