Turismo é bom, mas também traz precariedade e degradação do património

Banco central teme "hostilidade por parte dos habitantes locais, deterioração da experiência turística e degradação do património natural e histórico"
Publicado a

O turismo “traz óbvias vantagens para a economia portuguesa” porque é um motor muito importante das exportações, porque cria emprego. No entanto, o Banco de Portugal (BdP) alerta no boletim económico de inverno, publicado esta terça-feira, que há perigos inerentes ao negócio que devem ser desde já contrariados.

Turismo de baixa qualidade, empregos precários, degradação do património natural e cultural, são algumas das ameaças enumeradas pelo banco central.

O estudo começa por dizer que as perspetivas para a atividade turística em Portugal são “positivas”, uma vez que “Portugal tem um setor turístico relativamente competitivo”, houve um crescimento enorme de companhias aéreas de baixo custo (low cost) a voar para Portugal e há cada vez mais camas disponíveis em hotéis e alojamentos locais, diz o Banco, no mesmo boletim.

A concorrência elevada que caracteriza este mercado faz com que seja “fundamental continuar a apostar em fatores de atratividade turística não centrados na competitividade-preço, nomeadamente num aumento da qualidade e valor acrescentado dos serviços oferecidos que contribuam para fidelizar os visitantes e para um aumento da receita média por turista".

Por isso, "esta aposta permitirá manter um crescimento elevado das exportações de turismo em paralelo com o desenvolvimento de segmentos com margem de crescimento, como o turismo de negócios".

O BdP refere ainda que "as modalidades relativamente recentes de alojamento, em particular o alojamento local de pequena dimensão, tem dado um contributo forte para o aumento da oferta global do país aos visitantes estrangeiros e, nesse sentido, tem sustentado uma parte importante do desenvolvimento desta atividade”.

Os limites do turismo clássico e a promessa do "turismo de negócios"

Embora o “previsível” aumento da intensidade turística traga “óbvias vantagens para a economia do país”, ele “coloca também alguns desafios".

Alguns exemplos: "riscos de hostilidade por parte dos habitantes locais, a deterioração da experiência turística e a degradação do património natural, cultural e histórico", enumera o banco governado por Carlos Costa.

"Neste quadro, mantém-se a necessidade de uma melhor distribuição do turismo não residente ao longo do ano e em termos regionais", isto é, evitar o problema da sazonalidade e a dependência da época de verão; e distribuir melhor a procura por outras regiões, evitando a concentração nos destinos mais habituais ou tradicionais, como Algarve, Lisboa e Porto.

O regulador sugere, por exemplo, "uma estratégia para reduzir a sazonalidade" através da "promoção do turismo de negócios – que representava cerca de 8% do total do turismo em 2016 (por comparação com 15% na média mundial) – atendendo a que os eventos desta natureza (congressos, feiras, reuniões, etc.) tendem a concentrar-se nos meses de primavera e outono".

O já instituído Web Summit deve ser um dos exemplos que os economistas do BdP têm em mente quando recomendam esta via para revitalizar o turismo.

Problemas laborais

“Os progressos realizados nestas áreas deverão ser aprofundados de forma a evitar potenciais efeitos de congestão na época alta ou de subutilização de infraestruturas na época baixa, bem como o impacto negativo da sazonalidade sobre o mercado de trabalho, onde contribui para aumentar o emprego temporário e precário”, recomenda o Banco de Portugal.

“Não obstante este esforço de redução da sazonalidade, o investimento em infraestruturas de transporte e outras facilidades turísticas não deve ser descurado, evitando a criação de estrangulamentos. Finalmente, o quadro regulatório do setor deve permitir o desenvolvimento ordenado de novos modelos de negócio, nomeadamente associados a novas tecnologias.”

Por fim, o estudo do Banco de Portugal observa que “em termos de intensidade do turismo (número de chegadas de turistas em percentagem da população) e importância macroeconómica deste setor (peso da despesa em turismo no PIB), Portugal situa-se ligeiramente abaixo da média da Europa do Sul/Mediterrânea”, pelo que isto “indicia que existe margem para crescimento da atividade turística em Portugal acima do total da economia”.

Diário de Notícias
www.dn.pt