Bolflex já trata resíduos industriais da Europa e Américas

Grupo de Felgueiras tem, através da Rubberlink, a patente única para o processo e produto de desvulcanização da borracha, que permite a sua reciclagem e reutilização no circuito produtivo
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António Ferreira, o fundador do grupo Bolflex, tem um sonho antigo, o de acabar com os resíduos da indústria de calçado em Portugal. E embora ainda esteja longe de convencer os industriais nacionais, está já a receber resíduos para tratar e valorizar provenientes de fábricas de calçado italianas e de outras indústrias de Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Suécia e até do Chile e EUA. Espera este ano chegar já às duas mil toneladas de desperdícios tratados para terceiros, que devolve em pasta pronta a ser reutilizada. "Se não cresço em Portugal, cresço fora", admite o empresário, que tem dois grandes negócios em vista com multinacionais.

A Bolflex, de Felgueiras, nasceu como produtora de solas e, embora esteja já a diversificar as áreas de negócio, designadamente com incursões na moda e na saúde, não deixará nunca a área dos componentes. "Foi o que me deu o ser, nunca deixarei de ser um produtor de solas", garante António Ferreira.

Mas foi precisamente ao tomar consciência da quantidade imensa de toneladas de desperdícios que gerava a sua atividade industrial que não desistiu enquanto não encontrou forma de os voltar a introduzir na cadeia produtiva. Assim nasceu a Rubberlink, que se compromete a "devolver a borracha reutilizável ao mercado, a preços mais competitivos que a borracha virgem e com uma qualidade de excelência".

Foram duas décadas de muita investigação, experimentação e tentativa-erro e também de muito investimento: cerca de oito milhões de euros só na última década. Mas, finalmente, o processo de desvulcanização da borracha, e o produto que daí resulta, foram finalmente patenteados, no ano passado, para o mercado nacional, e a decorrer está o processo de licenciamento da patente europeia.

Neste momento, os desperdícios da produção da Bolflex são todos tratados pela Rubberlink. "São 220 toneladas ao ano que deixam de ir para aterro", garante António Ferreira. Além dos desperdícios de borracha, a empresa trata materiais não metálicos, sapatos, e termoplásticos de indústrias diversas. Com os testes para a integração da borracha reciclada no alcatrão em "fase avançada", o empresário está apostado em entrar no segmento da construção.

O grupo também recebe e trata fatos de neoprene (usados, por exemplo, no surf), luvas de latex, perfis de automóveis e pranchas de EVA, entre outros materiais, e pretende fornecer soluções para indústrias como o automóvel e o desporto, entre outras. António Ferreira acredita, por exemplo, que os rails das autoestradas, que hoje são de alumínio, podiam ser substituídos por outro tipo de artigo, de borracha reciclada.

Com 220 trabalhadores e três unidades industriais, o grupo Bolflex trabalha em três turnos, ou seja, 24 sobre 24 horas, seis dias por semana. Cerca de 70% da energia elétrica que utiliza é gerada pelo seu parque de 1400 painéis fotovoltaicos que tem, mas que vai aumentar, este ano, para tentar assegurar uma autonomia na ordem dos 90%.

Teve em 2022 o melhor ano de sempre, com uma faturação superior a 16 milhões de euros, mas no qual a Rubberlink representou ainda menos de 10%. Este ano, com o crescimento da procura internacional, e os novos negócios em preparação, acredita que poderá crescer na ordem dos 30%.

"É moda e fica muito bem hoje em dia falar-se de sustentabilidade mas, na hora da verdade, ninguém quer pagar o preço de ser sustentavel", diz António Ferreira. Por outro lado, o grande desafio é conseguir que os materiais reciclados sejam exatamente iguais aos produzidos a partir de matérias-primas virgens. "É inadmissível que as grandes marcas de alta costura e moda rejeitem uma peça à mínima pintinha visível, sendo que o controlo e a preocupação em mitigar esses aspetos é imenso. Fazemos a separação por cores e por diferentes tipos de desperdícios para que isso não aconteça", refere.

O grupo entrou no negócio dos injetados de EVA e termoplásticos, produzidos a partir de desperdícios da produção da Bolflex, em 2019, com a My Cute Pooch, marca de carteiras vendida maioritariamente em Portugal, mas que já começa a chegar a vários mercados europeus. E esta será uma das grandes apostas de futuro, estando planeada a entrada também no segmento da saúde.

Além de palmilhas, será lançada uma linha de calçado medicinal, numa combinação de injetados e impressão 3D, que o grupo apresentou, pela primeira vez, na edição de setembro da Lineapelle, a feira de componentes para calçado de Milão, e que foi "muito bem recebida" pelos potenciais clientes.

"A inovação susustentável é uma premissa para abrir novos horizontes e mostrar as nossas potencialidades", diz o empresário que pretende apostar ainda em artigos de decoração, designadamente nas áreas de jardinagem e bricolagem.

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