O ex-presidente da CP, Nuno Freitas, insurgiu-se esta quarta-feira no parlamento contra a "tentativa de denegrir" a sua imagem devido à participação acionista que tem na tecnológica Nomad Tech, uma das empresas fornecedoras da transportadora ferroviária.."Percebe-se que é um tema sensível, percebe-se que é uma tentativa de denegrir a minha imagem", afirmou Nuno Freitas durante uma audição parlamentar na Comissão de Economia, Inovação, Obras Públicas e Habitação, onde foi esclarecer a sua decisão de sair da presidência da CP no final do passado mês de setembro, três meses antes do final do mandato..As declarações do ex-presidente da CP foram feitas na sequência da intervenção do deputado do PSD Carlos Silva, que, referindo a participação de 7% de Nuno Freitas na Nomad Tech, apontou os "negócios avultados", nomeadamente por ajuste direto, celebrados entre as duas empresas..Garantindo que "nunca fez nenhuma adjudicação à Nomad Tech", porque "o presidente do Conselho de Administração [da CP] não faz adjudicações, quem faz adjudicações à Nomad Tech é a CP", Nuno Freitas recordou que sua participação no capital da empresa tecnológica, especializada em soluções para a ferrovia, "é sobejamente conhecida" e assumiu-se "um bocado incomodado com as insinuações que vêm de diversos lados" sobre esta questão.."Aliás, eu recusei aquela habilidade típica nestas circunstâncias de vender as minhas quotas a alguém e depois ir recuperá-las a seguir, como fui aconselhado várias vezes a fazer. Mas não fiz, porque não tenho rigorosamente nada a esconder", disse..Segundo salientou, antes de assumir a presidência da CP fez "questão de realçar esta particularidade" [de ser acionista da Nomad Tech] e de "expor" a sua "situação profissional" ao ministro da tutela, que "analisou os estatutos da CP, os estatutos do gestor público e o regime de incompatibilidades e impedimentos de titulares de cargos políticos e altos cargos públicos e não encontrou nenhuma situação que fosse alvo de incompatibilidade ou irregularidade"..Ainda assim, frisou, e "apesar de não existir qualquer razão legal" que o "impedisse de estar presente nas decisões de contratação", Nuno Freitas garante que sempre fez "questão" de se "ausentar quando o assunto envolvia a Nomad Tech": "Eu saí em todas as reuniões e ocasiões que envolveram a Nomatech e não só, também potenciais concorrentes da Nomad Tech", assegurou..Nuno Freitas recusou ser "acionista de referência" da empresa tecnológica e relembrou que "a CP tem 35% da Nomad Tech", uma posição "cinco vezes maior" do que os seus 7%..Já relativamente a Pedro Moreira, até agora vice-presidente da CP, entretanto apontado para a liderança da empresa ferroviária e que é, simultaneamente, gerente da Nomad Tech, Nuno Freitas explicou que tal acontece precisamente "porque a CP tem 35%" da empresa e, "normalmente, é sempre um membro do Conselho de Administração da CP que está na gestão da Nomad Tech, precisamente pelas questões do estatuto de gestor público"..No que se refere à mais recente adjudicação da CP à Nomad Tech, feita por ajuste direto, o ex-presidente da CP esclareceu que os módulos em causa "já tinham sido adquiridos, por ajuste direto, à Nomad Tech pelos dois conselhos de administração" que o antecederam.."Parece que querem que isto seja uma novidade, mas isto não é nenhuma novidade", garantiu..Nuno Freitas explicou que "estas adjudicações diretas - que são diversas, na CP, principalmente nos temas relacionados com o material circulante, porque são coisas muito específicas - não são tomadas pelo presidente do Conselho de Administração, são tomadas pelo Conselho de Administração e são suportadas pelos pareceres das direções de compras, de engenharia e jurídica".."Todos estes processos não são feitos às escondidas, como parece haver essa insinuação por diversas vezes, em diversos momentos. Todos estes concursos e estes processos de adjudicação são registados em plataformas públicas [...] e, além disso, seguem o Código de Contratação Pública ou um normativo interno de contratação, quando aplicável. E, acima disto tudo, todos estes processos são auditáveis e são auditados", sustentou..Nuno Freitas recordou que "os problemas que a CP tem" com os módulos em causa "são os mesmos com que se debate desde que o fabricante informou que esta tecnologia está descontinuada, já lá vão uns 10 anos".."A CP, nessa altura, tinha quatro hipóteses: Podia começar a parar a linha de Sintra [...] e começar a canibalizar veículos para manter a frota a andar; podia substituir as cadeias de tração completas das automotoras de Sintra, com custos estimados acima de 100 milhões de euros, entregando ao fabricante; tinha uma terceira hipótese, de reparar os módulos (velhos) existentes com custos exorbitantes e uma reduzida fiabilidade; e a quarta solução era comprar um módulo desenvolvido pela Nomad Tech, em Portugal, por um terço do valor de reparar os módulos velhos", explicou..Adicionalmente, referiu, "estes módulos poupam cerca de 10% da energia consumida pelo sistema de tração".