O Instituto de Telecomunicações (IT) assinala esta segunda-feira trinta anos de existência. São três décadas de atividade de uma organização sem fins lucrativos e de interesse público, criada para disseminar o conhecimento sobre as tecnologias de informação e comunicação, partindo de um plano académico rumo ao desenvolvimento de setores económicos estruturais. Exemplo disso mesmo são os projetos desenvolvidos em parceria com empresas como a Huawei, Bosch e Altice Labs, mas também com organismos como a Marinha ou a NATO. Para assinalar a data, decorre esta segunda-feira uma conferência sobre as telecomunicações no Taguspark, seguindo-se a inauguração de uma Sala Limpa para montagem de nano satélites, no polo de Oeiras do IST, fruto de uma parceria entre o IT e o Técnico. Antes, o professor catedrático e presidente do IT, José Carlos Pedro, fala ao Dinheiro Vivo.
Trinta anos de atividade é muito tempo. Que marcos (ou projetos) assinalaria como mais importantes naquilo que tem sido a atividade do Instituto de Telecomunicações (IT)?
Em 1992, o Instituto Superior Técnico, a Universidade de Coimbra e a Universidade de Aveiro decidiram associar-se a uma empresa, na altura o Centro de Estudos de Telecomunicações dos CTT/TLP - hoje Altice Labs - e, no âmbito do Programa Ciência, criar uma associação privada sem fins lucrativos. Daí para cá, o IT começou por se afirmar como instituição de investigação relevante, principalmente no contexto académico nacional, unindo esforços e saberes já existentes, mas dispersos por várias instituições. Na primeira metade dos anos 1990, o IT constitui-se como instituição de investigação e desenvolvimento que reunia a massa crítica necessária para colocar além-fronteiras o conhecimento desenvolvido em Portugal. De seguida, acompanhou o crescimento verificado nas instituições de ensino superior português quer a nível universitário, quer politécnico, fazendo um esforço de integração e alargamento a sua cobertura territorial, duplicando o número de instituições associadas, e, consequentemente, os recursos humanos e financeiros que passou a ter disponíveis. Com isso, aumentou em quantidade e qualidade a atividade levada a cabo pelos seus investigadores, vindo a ser reconhecido como Laboratório Associado do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em 2001.
As parcerias com empresas surgiram mais tarde, portanto.
Em paralelo, diversificou a sua ação, dando maior dimensão à componente de transferência de tecnologia para as empresas e, mais recentemente, tem visto um rápido crescimento na componente de investigação colaborativa com empresas, em particular com grandes multinacionais tecnológicas, que são as organizações privadas que podem disponibilizar mais meios à investigação científica e ao desenvolvimento tecnológico. Este compromisso com a transferência de tecnologia veio culminar em 2018 com o reconhecimento como Centro de Interface Tecnológico - e já em 2022 como Centro de Tecnologia e Inovação - pela Agência Nacional de Inovação [ANI].
E desse percurso resultou uma instituição relevante para o meio académico e para o setor.
As cerca de 18 900 publicações científicas, as 55 patentes ativas, os 638 doutoramentos e os 3548 mestrados desenvolvidos nos laboratórios o IT, bem como as 251 parcerias internacionais, que resultaram dos inúmeros projetos de investigação e desenvolvimento em que participámos ou liderámos nestes 30 anos, fazem hoje do IT uma instituição incontornável no panorama científico nacional nas tecnologias da informação comunicação e eletrónica.
Os 30 anos do IT coincidem com um momento crucial na vida tecnológica do país, nomeadamente a implementação do 5G e a entrada de uma nova legislação para as comunicações eletrónicas. Que avaliação faz do setor das telecomunicações português?
Como acontece com quase todas as tecnologias, o que chega ao grande público, como é o caso da implementação do 5G, é só uma pequena fração do que esta nova geração de telecomunicações tem para oferecer. Na verdade, mais que uma tecnologia específica, há uma grande expectativa que o 5G venha agregar e colocar em rede várias tecnologias, que podem ir desde as já conhecidas comunicações de voz, vídeo, dados e internet móvel, ao controlo remoto de pequenos equipamentos e à comunicação entre eles - as chamadas redes IoT - Internet das Coisas -, de aplicação domótica e na digitalização das empresas, às cidades inteligentes e à condução autónoma, ou à telemedicina, entre muitas outras. E o IT está ativamente a contribuir para este novo estádio evolutivo das telecomunicações, desenvolvendo o conhecimento e a tecnologia apropriados, bem como concebendo aplicações para todos estes cenários.
Como compara, na sua opinião, o país com a restante Europa?
O que se faz em Portugal não fica nada atrás do que se vê na Europa ou no resto do mundo. Na verdade, só assim se pode compreender a publicação dos nossos trabalhos nas melhores revistas e conferências internacionais, bem como o convite que nos é feito para integrarmos consórcios europeus destinados a desenvolver projetos conjuntos, e até para conduzir investigação colaborativa com alguns dos maiores operadores de comunicações, e empresas construtoras de equipamento a nível mundial, sempre num ambiente extremamente competitivo. Em 2020, e depois de várias outras experiências bem-sucedidas de projetos de investigação com a gigante Huawei - que em 2015 levaram a que o IT fosse galardoado com o Annual Collaboration Award para a melhor colaboração académica a nível mundial -, a Huawei Portugal, decidiu doar um equipamento 5G à Universidade de Aveiro, que está instalado no IT, para que estes acelerassem o uso do 5G na educação e no processo de transição digital das empresas.
O trabalho do IT é essencialmente académico e de apoio à experimentação tecnológica.
O trabalho do IT é essencialmente académico, no melhor e mais moderno sentido do termo. É académico porque tem como raiz a ideia do livre pensamento e criação, valor essencial à academia, e, digo, no melhor e mais moderno sentido do termo, porque não pretende ficar-se pelo desenvolvimento do conhecimento científico, mas visa disponibilizá-lo à sociedade para que ele possa constituir-se como um motor de criação de riqueza e bem-estar, numa palavra: de desenvolvimento sustentável. Foi isto que esteve na base da criação do IT e que se mantém bem patente no seu ADN.
É comum ouvir que os portugueses são uns early adopters das novas tecnologias. E o Estado como é, considera que as telecomunicações têm sido uma prioridade para o Estado - o processo do 5G foi bastante polémico e a adoção da nova lei e códigos europeus da área atrasou dois anos, por exemplo?
Diria que, em primeiro lugar, há que distinguir as instituições responsáveis pela governação do Estado e as pessoas que a certo momento as ocupam, do Estado propriamente dito, dado que este é muito mais que aquelas. E, independentemente do equilíbrio e distribuição de responsabilidades que venha a criar-se entre o setor público e o setor privado, certo é que as telecomunicações desempenham, como sempre desempenharam, um papel essencial às sociedades economicamente desenvolvidas, não sendo expectável que esse papel venha a diminuir de importância, pelo menos no médio prazo. Com efeito, do ponto de vista económico, as telecomunicações são uma atividade essencial à promoção de investimento e à criação de emprego.
Uma das críticas que se faz ao setor é o de permitir ainda que existam zonas do país sem qualquer cobertura de rede. Os operadores justificam-se com as lógicas comerciais. O governo tem projetos no sentido de levar redes de alta velocidade às zonas mais remotas e sem cobertura. Do ponto de vista tecnológico, Portugal vai estar algum dia integralmente coberto com redes de telecomunicações?
Não querendo ver para além do horizonte que a ciência nos proporciona, não me parece nada improvável acreditar num cenário onde todas as zonas onde residam cidadãos venham a estar cobertas com redes de comunicações. Essa não é uma questão de ordem técnica, pois existem várias soluções tecnológicas para o conseguir. A questão pode é colocar-se relativamente ao espaço temporal em que esse desejo possa vir a concretizar-se. É até mesmo credível que, de um ponto de vista estritamente tecnológico, essas manchas de cobertura possam chegar a zonas onde não há pessoas, desde que isso seja necessário ou útil. Disso são exemplos os projetos que o IT tem desenvolvido para a utilização das tecnologias de comunicações na monitorização de incêndios florestais, ou na deteção por satélite do lixo de plástico à deriva nos oceanos.
Muito se fala por estes dias no cumprimento das obrigações de cobertura definidas pela Anacom até 2025. Do ponto de vista tecnológico, tendo em conta o atraso no último leilão de frequências e o atual contexto económico, acredita que os operadores vão cumprir as metas do 5G até 2025?
Do ponto de vista estritamente tecnológico não há razões para acreditar que tais objetivos não possam ser atingidos. Só poderia afirmar-se o contrário se se desse o caso de ainda não existir a tecnologia necessária à cobertura universal, mas isso não é verdade. No entanto, a minha formação em engenharia também me obriga a afirmar que não parece razoável esperar que o turismo espacial venha a ser disponibilizado para todos a breve prazo, só porque se demonstrou existir a tecnologia necessária para tal...
E sobre a nova lei das telecomunicações, ao contrário do que acontecia antes, a nova legislação pressupõe que as antenas e respetivos componentes dos operadores sejam avaliadas ao nível da segurança e integridade das redes. Consequentemente, cada antena e componente utilizado pelos operadores terá de ser certificada. O que sabemos ao dia de hoje sobre o nível de segurança e integridade das redes dos operadores? Haverá em Portugal problemas de segurança nas redes de telecomunicações?
O problema da segurança nas redes de comunicações é multifacetado, podendo ser visto de várias formas diferentes. Por exemplo, pode falar-se na segurança encarada como a fiabilidade do sistema em si, na segurança contra a intrusão ou a auscultação indevida, ou na segurança do ponto de vista do efeito da radiação eletromagnética nas pessoas, só para citar alguns aspetos de que hoje se houve frequentemente falar. E, como sempre, a ciência e a história ensinam-nos que não há sistema algum cuja segurança seja absolutamente inviolável, nem sistemas completamente inseguros, porque esses já há muito teriam deixado de ser utilizados.
Pode elaborar um pouco mais...
No que respeita à fiabilidade dos sistemas de comunicação, se é certo que, por vezes, nos vemos a questiona-la, não é menos certo que só nos damos conta dela aquando da sua falha, tendendo a ignorar os muitos minutos, horas, dias e anos em que os sistemas de telecomunicações nos servem sem interrupção, dia e noite. Neste domínio, o IT em conjunto com outras entidades, nomeadamente os municípios correspondentes, criou em Aveiro e Ílhavo laboratórios vivos, abertos, que permitem o teste real de equipamentos e aplicações, contribuindo para a maior fiabilidade dos mesmos. Relativamente à segurança contra a intrusão e a auscultação indevida, o que se verifica é uma corrida tecnológica incessante entre quem desenvolve sistemas de proteção e quem os tenta quebrar, razão pela qual o IT tem vários grupos a trabalhar em cibersegurança, tendo conquistado alguma notoriedade nesse, cada vez mais importante, domínio. Presentemente, acredita-se que os sistemas de comunicações quânticas podem constituir uma mudança de paradigma na solução deste problema, dado que a Física Moderna nos diz que, e não obstante parecer contraintuitivo, ao nível das partículas mais elementares, não pode haver observação oculta, isto é, sem que esta se revele. Estando na vanguarda da tecnologia, o IT tem dois grupos de investigação a trabalhar neste domínio que, em 2011, demonstraram comunicações quânticas em fibra ótica com um fotão - uma particula elementar de luz - e, mais recentemente, em 2019, conseguiram a primeira demonstração de comunicações óticas quânticas em espaço livre em Portugal.
No que respeita à segurança do ponto de vista do efeito da radiação eletromagnética nas pessoas, este é um tema que tem feito correr muita tinta, e, muitas vezes, sem grande suporte científico. Mas também aqui o IT tem colocado o seu conhecimento ao serviço da sociedade. Por exemplo, em 2003, conduziu um projeto de monitorização exaustiva da radiação eletromagnética nas redes móveis nacionais, e desde aí tem vindo a acompanhar os desenvolvimentos científicos do tema, não se ficando pela discussão mediática mais ou menos acalorada, mas demasiadas vezes pouco informada, tendo a decorrer um projeto de investigação em que pretende usar essa mesma radiação eletromagnética na imagiologia médica como auxiliar de diagnóstico à deteção do cancro da mama, por exemplo. Em qualquer caso, e se a segurança das redes de comunicações visar os efeitos da radiação eletromagnética nas pessoas, o IT dispõe dos melhores meios laboratoriais e recursos humanos altamente qualificados, que fazem dele a instituição de referência, a nível nacional, caso o Estado venha a determinar estudos mais elaborados neste domínio. De facto, estas são atribuições que o IT encara no cumprimento das responsabilidades de suporte às políticas públicas e aos desafios societais que o estatuto de Laboratório Associado lhe atribui.
Ainda estamos só no início do 5G e já se fala e estuda-se o 6G. Quando será o 6G uma realidade para os consumidores e empresas, e que tipo de inovações permitirá o 6G?
Neste momento, e tanto quanto o desenvolvimento tecnológico nos permite antever o futuro, é ainda demasiado cedo para se falar na disponibilização do 6G às pessoas e às empresas. Desde logo porque não se sabe ainda o que será o 6G e, arriscaria mesmo a dizer que não se saberá exatamente, enquanto não se tiver uma ideia mais clara de quais os serviços e correspondente desempenho que as redes 5G afinal virão a oferecer. Há algumas inovações tecnológicas, em que o IT tem vindo a trabalhar, que ainda não há muitos anos se estudavam como potencialmente vindo a integrar uma rede 5G, mas que hoje se pensa que poderão ser deixadas para o 6G. Mas tal situação nem sequer é nova pois já aconteceu na transição da segunda para a terceira e quarta gerações móveis. Por exemplo, o uso das bandas das chamadas ondas milimétricas - de 30 gigahertz (GHz) a 300 GHz -, que se apresenta como tecnologia distintiva do 5G, já em 1992 - pouco depois da introdução do 2G e vários anos antes do 3G - se desenvolvia no IT, nomeadamente num projeto europeu de que o IT era parceiro, e onde desenvolveu o primeiro protótipo de comunicações móveis de banda larga em ondas milimétricas.