O presidente executivo do grupo Vodafone, Nick Read, acredita que há espaço em mercados como o português, britânico, espanhol e italiano para consolidações no setor das telecomunicações. Por isso, confirmou que a telecom está "proativamente" à procura de possíveis fusões nesses quatro mercados.
A revelação surgiu numa videoconferência com analistas, após a apresentação de resultados do grupo britânico, onde o líder da casa-mãe da Vodafone Portugal foi questionado se admitia, perante a proposta certa, sair de algum mercado ou unir esforços com outro player. Sobre as declarações do gestor, que têm um potencial impacto no setor nacional, fonte oficial da Vodafone Portugal disse ao Dinheiro Vivo que nada havia a acrescentar sobre as afirmações de Read.
Os últimos dois anos provocaram alterações substanciais no setor das telecomunicações, em vários países europeus, sobretudo devido à chegada da quinta geração da rede móvel que alavancou o aparecimento de novos operadores. Para o grupo britânico, o surgimento de novos players cria limites ao retorno dos investimentos, pelo que operações de consolidação serão as principais opções para melhorar ganhos no setor.
O gestor disse que o grupo está atento em "múltiplas frentes", notando que há "mercados onde existem fortes oportunidades para consolidações, sem que haja necessidade de remédios muito punitivos".
As frentes a que o CEO da Vodafone se referia são Reino Unido, Espanha, Itália e Portugal. "Estamos em conversas com várias partes em vários mercados", revelou.
O gestor abordou mesmo o caso português, relembrando que, em virtude do leilão do 5G, o setor vai passar a contar com "dois novos entrantes quando, deveria ter só mais um".
Em Portugal, atuam três operadores históricos - Vodafone, NOS e Altice - que, após o leilão do 5G, ficaram a saber que, em breve, terão a concorrência de mais duas telecoms - Digi e Nowo. A Digi ainda não tem atividade e a Nowo, para já, continua a funcionar como um operador móvel virtual.
MásMóvil será hipótese para Espanha. E Portugal?
Horas antes da call com analistas, o espanhol El Confidencial noticiou que os investidores por detrás da MásMóvil, que inclui o fundo norte-americano KKR, reabriram o diálogo com a Vodafone tendo em vista uma fusão da operação do grupo em Espanha.
O interesse da MásMóvil, que em Portugal controla a Nowo, não é de agora. Em 2019, os donos deste operador terão tentado comprar o negócio espanhol da Vodafone por seis mil milhões de euros. Mas nada aconteceu. Em 2020, o CEO do grupo Vodafone, perante os rumores, admitia "avaliar potenciais oportunidades", mas mais uma vez nada aconteceu.
Um ano depois, os jornais espanhóis noticiavam que a dona da Nowo não desistira do negócio e que tinha contratado o banco de investimento Goldman Sachs para estudar aquisições nos mercados espanhol e português. O Expansión escrevia, então, que a MásMóvil procurava fundir-se com a Vodafone não só em Espanha, mas também em Portugal.
Fontes do setor, ouvidas pelo Dinheiro Vivo, apresentam a seguinte leitura: como a Vodafone detém a terceira quota de mercado, em Portugal, perante a chegada de mais dois operadores, haverá constrangimentos para crescer - dificuldades para todos os players, aliás -, pelo que uma fusão pode ser uma alternativa. É que - explicaram - um "excesso" de telecom pode desincentivar investimentos e movimentos de consolidação podem fazer sentido.
Também o CEO da Vodafone, na conversa com analistas, afirmou "haver empresas a mais no negócio", o que poderá levar a um baixo retorno sobre o capital.
Por cá, a concorrente a operação portuguesa também terá estado no mercado, com o grupo de Patrick Drahi à procura de interessados. Contudo, o grupo Altice terá desistido da venda, por não terem surgido interessados em pagar seis mil milhões, pelo menos.
Tentativas de consolidação
De acordo com a Bloomberg, no final de 2021, o grupo Vodafone já terá feito abordagens ao mercado. No final de 2021, exploraram uma hipótese com a Three UK, detido pela CK Hutchison Holdings. A Reuters e o jornal espanhol El Confidencial também deram conta de conversações do mesmo teor em Itália e em Espanha.
"Mantemos um diálogo regular com grandes e pequenos acionistas e, em geral, também tem havido especulações na imprensa sobre fusões e aquisições em mercados europeus específicos. Não posso comentar isso em detalhe", afirmou o CEO do grupo Vodafone.
A Vodafone também está à procura de parceiros de negócio para o negócio das torres de telecomunicações. Para essa área a empresa con através da sua spin-off Vantage Towers AG. A Bloomberg escreveu que a Vodafone está em diálogo preliminar com a Deutsche Telekom.
"A próxima fase deverá ser uma fusão industrial que junte as nossas torres a outro grande player, um player que pense como nós", realçou Read.
O grupo Vodafone apresentou resultados esta quarta-feira, anunciando que as receitas atingiram 11.684 milhões de euros no terceiro trimestre do ano fiscal, mais 4,3% do que em 2020. Em Portugal, as receitas cresceram 7,7%, para 298 milhões.