A novidade chegou com estrondo dia 7 de abril: a Unbabel, considerada um dos maiores casos de sucesso do empreendedorismo nacional dos últimos anos, anunciou a saída de 35% dos seus funcionários. Apenas três semanas depois de garantir que estava "bem capitalizada", a empresa liderada por Vasco Pedro aplicou um tratamento de choque: os efeitos da pandemia da Covid-19 em alguns dos principais clientes da plataforma de tradução que recorre à inteligência artificial justificaram esta decisão.
Só que a reestruturação da empresa está a dividir os praticamente 100 trabalhadores que estão na porta de saída, conforme o Dinheiro Vivo apurou nas últimas duas semanas. A tecnológica não tem alternativa a não ser propor rescisões por mútuo acordo aos funcionários, o que lhe retira o direito ao subsídio de desemprego. Numa altura em que ainda não chegou a acordo com todos os trabalhadores, a ACT - Autoridade para as Condições do Trabalho já recebeu oito pedidos de intervenção na Unbabel.
Só que para explicar como que é a empresa chegou a este ponto é preciso recuar até aos primeiros dias de 2020.
28 de janeiro. Vasco Pedro foi um dos oradores do evento Building the Future, organizado pela Microsoft. O líder da Unbabel participou num painel sobre a importância da inteligência artificial em todos os negócios (é a fotografia que acompanha este artigo). Depois disso, Vasco Pedro revelaria ao Dinheiro Vivo que a empresa já contava com 267 trabalhadores, "ou seja, duplicámos o número no ano passado". Estavam divididos entre os escritórios de Lisboa, São Francisco, Pittsburgh, Nova Iorque e Singapura. (leia a entrevista publicada dia 27 de fevereiro)
Sabe-se agora que o número de funcionários estagnou no início deste ano porque houve instruções para congelar as contratações. "Parei de contar as pessoas que entraram no ano passado. Antes do coronavírus, já se sentia que o número de pessoas era um problema", refere Vânia (nome fictício), uma trabalhadora que saiu da empresa nos últimos dias e que pediu para não ser identificada.
Também a empresa estava cada vez mais preocupada com a sua rentabilidade. "Tínhamos de otimizar os custos ao máximo. O rendimento por pessoas era muito baixo para aquilo que era pedido pelos investidores", relatam outros antigos trabalhadores.
As receitas anuais da empresa em 2019 foram de "mais de 10 milhões de dólares, mais do que duplicámos as receitas", assinalou Vasco Pedro na mesma entrevista.
12 de março. A Unbabel comunicou que a partir de 16 de março ia funcionar em regime de trabalho remoto para prevenir o contágio pela pandemia do novo coronavírus. Vasco Pedro aproveitou o e-mail para garantir que a empresa tinha todas as condições financeiras para suportar o embate. No início dessa semana, a easyJet, uma das principais clientes da plataforma, já estava a cancelar voos.
"Embora o impacto da situação já esteja a ser sentido na economia mundial, estamos bem capitalizados e, continuamente, a melhorar os nossos processos para sermos mais eficientes, pelo que estamos confiantes que temos os recursos para aguentar qualquer recuo possível", escreveu o líder num e-mail a que o Dinheiro Vivo teve acesso. Mensagem semelhante seria publicada cinco dias depois no portal da empresa.
Antes disso, dia 10, a Unbabel tinha sido considerada como uma das empresas mais inovadoras do mundo em 2020, pela revista norte-americana Fast Company. A tecnológica ficou em terceiro lugar na categoria de empresas.
Meses antes, em setembro de 2019, a Unbabel tinha assegurado uma ronda de investimento de 60 milhões de dólares, em série C, liderada pela Point72 Ventures, a sociedade de capital de risco criada pelo fundo de investimento norte-americano Point72. Esta operação foi anunciada um ano e nove meses depois da série B de investimento (23 milhões de dólares) e cerca de três anos depois da série A de investimento (5 milhões de dólares).
A Unbabel tinha o hábito de promover reuniões gerais de duas em duas semanas, onde eram anunciados os progressos da empresa e outras novidades que fossem relevantes. Só que no dia 3 de abril não se juntaram todos os trabalhadores e a reunião passou para dia 7.
Foi nessa reunião que todas as pessoas ficaram a saber que ia haver um plano de reestruturação, que implicava a saída de 30% dos trabalhadores - horas depois, soube-se o plano iria levar à saída de 35% do quadro.
Na reunião geral, a empresa anunciou que iria ter reuniões com cada um dos funcionários. Só que apenas os trabalhadores que estavam de saída é que iam ter esse momento.
“A solução decidida hoje enquadra-se e responde à conjuntura atual. A Unbabel traz eficiências operacionais e, mais do que nunca, é importante as grandes empresas prestarem apoio aos seus clientes. Mas como uma mudança tão drástica na economia global tivemos de nos agilizar com uma reestruturação interna que nos permitisse fazer face à conjuntura atual e futura”, acrescenta Vasco Pedro.
Essa mudança drástica apanhou em cheio alguns dos clientes da empresa, sobretudo na área do turismo, como TAP, easyJet, Booking.com, Trivago. Mas também plataformas como a Eventbrite são clientes da tecnológica portuguesa e já tiveram de anunciar a redução de postos de trabalho.
Ainda assim, a Unbabel também conta com clientes nas áreas de gaming, retalho, tecnologia e fintech.
Para garantir a saída dos trabalhadores, a empresa propôs um pacote de benefícios: indemnizações "acima da média"; extensão do seguro de saúde de todos os trabalhadores até ao final do ano; oferta dos computadores portáteis de trabalho; ajuda na recolocação em novos empregos e apoio aos expatriados.
As rescisões são a única forma de a empresa conseguir reduzir a equipa em poucas semanas. A empresa não reúne condições para o despedimento por extinção de posto de trabalho ou por despedimento coletivo.
Para que isso acontecesse, a empresa teria de apresentar dados sobre redução da atividade da empresa (motivos de mercado); promover uma reestruturação produtiva (motivos estruturais); ou então automatizar os instrumentos de produção (motivos tecnológicos), conforme consta do número 2 do artigo 359.º do Código do Trabalho.
Por causa do mútuo acordo, "o Código do Trabalho não dá direito ao subsídio de desemprego", lembra o advogado especialista em Direito do Trabalho Pedro da Quitéria Faria. Os trabalhadores só teriam acesso ao subsídio de desemprego se a rescisão por mútuo acordo fosse "fundamentadas em motivos que permitam o recurso ao despedimento coletivo ou por extinção do posto de trabalho", como refere o número quatro do artigo 10.º do regime do subsídio de desemprego.
E mesmo nessa situação, como a Unbabel tinha mais de 250 trabalhadores, apenas "são consideradas as cessações de contrato de trabalho até 62 trabalhadores inclusive, ou até 20% do quadro de pessoal, com um limite máximo de 80 trabalhadores" em cada três anos.
O processo de reestruturação na Unbabel afetou praticamente todas as áreas da empresa, das mais técnicas até mesmo à área de vendas. Mas foi sobretudo na equipa de linguistas e de marketing que as baixas foram mais sentidas, com a saída de dois terços de cada uma destas equipas.
A Unbabel pretendia ter todas as rescisões assinadas até 13 de abril. Só que até sexta, 24, ainda nem todos tinham assinado, por não concordarem com as condições propostas pela empresa. Quem ainda não rubricou o documento continua a manifestar todos os dias a disponibilidade em trabalhar para a empresa para que não seja despedido por justa causa.
Há mesmo funcionários que apresentaram queixas à ACT. Desde o início de 2019 "até à presente data, deram entrada no portal da ACT 8 pedidos de intervenção na empresa Unbabel, Lda", segundo fonte oficial.
Com as rescisões por mútuo acordo, a Unbabel acredita que terá capital suficiente para aguentar a empresa pelo menos até ao final de 2021 sem necessitar de novos investidores.
Além disso, a empresa transmitiu logo no início de abril que "vai continuar a servir o mercado global, mais digitalizado e globalizado depois desta crise, e a investir no desenvolvimento de produtos que, através de Inteligência Artificial aliada a uma rede global de tradutores, permitam às empresas comunicar com os seus clientes nas suas línguas nativas, com uma tradução escalável em qualquer canal digital”.
O Dinheiro Vivo tentou obter respostas da Unbabel relativamente às posições dos antigos trabalhadores mas não recebeu qualquer comentário.