Dar dinheiro resulta? “Não chega para mudar a sociedade. O humano não é simples”

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É a investigadora chefe do instituto da Segurança Social da Finlândia, Kela, chama-se Minna Ylikännö e, um ano depois do estudo finlandês que colocou duas mil pessoas a ‘viver’ um teste ao Rendimento Básico Incondicional ter chegado, na parte prática, ao fim continua a estudar o que se passou: um projeto-piloto de dois anos pagou a 2 mil desempregados um rendimento mensal de 560 euros, sem condições e que, apesar dos desejos dos investigadores, não se prolongou. “Neste momento temos quatro pessoas que continuam a investigar os dados que recolhemos e dados finais só em maio”, explica-nos naquele que foi um pedido do governo para que tudo, planeamento, implementação e resultados fossem feitos em quatro anos.

E foi um sucesso ou insucesso? “Isso é mais uma visão política ou dos media. É uma questão muito peculiar, numa semana mostrámos resultados pouco positivos na obtenção de emprego para o grupo que beneficiou do rendimento mensal sem condições e isso tornou-se notícia por todo o mundo, como um insucesso; na semana seguinte mostrámos resultados positivos de bem estar e saúde nos participantes e a experiência já era um sucesso enorme nas notícias”.

Para os investigadores foi “uma experiência bem sucedida”, admite a investigadora numa conversa entre Lisboa e Espoo por videoconferência. Isto porque conseguiram fazer tudo com base numa lei nacional, mesmo que “não tenha sido a melhor experiência do mundo”. “É motivador ver o tema a ser discutido na sociedade, mas o estudo quer ajudar a reformar a segurança social finlandesa nos próximos anos porque sabemos que o sistema atual não funciona porque há grupos da população que não estão a ter o apoio que precisam”.

Numa altura em que os defensores do conceito de Rendimento Básico Incondicional olham para a crise pandémica (e consequente crise económica e transformação social) “como uma prova que esse é o caminho”, Minna admite que é da opinião que: “não é assim tão fácil na sociedade atual”.

Não nos podemos esquecer que o rendimento não é tudo, na verdade só dar dinheiro às pessoas é algo muito capitalista, mas as pessoas precisam mais do que dinheiro já que ter todos os serviços necessários gratuitos faz a diferença. Sim, dar dinheiro às pessoas dá-lhe liberdade de comprarem o que quiserem, isto partindo do princípio que irão tomar as melhores decisões, o que nem sempre é verdade. “Daí que a assistência social a todos proporcionando alojamento, alimentação, roupa, ensino e saúde, por exemplo, seja também um bom princípio.”

Os sistemas de assistência social finlandeses (e nórdicos) começaram a expandir-se nos anos 1960 e 1970 e tiveram o seu auge nos anos 1980, explica-nos Minna, quando se davam serviços e dinheiro à pessoas. “Quem quisesse, não precisava de um emprego”.

Na verdade, a Finlândia tinha nessa altura a assistência social aos seus cidadãos "mais avançada do mundo", garantindo condições de vida decentes para todos os finlandeses - o que incluía dinheiro, aconselhamento familiar, alojamento para quem precisasse e cuidadores em casa ou instituições para quem precisa de apoio (os mais velhos, toxicodependentes ou doentes mentais). “Gostávamos o sistema, mas o dinheiro acabou nos anos 1990 e tudo explodiu pelas circunstâncias”, no entanto, mantiveram “muitos serviços públicos gratuitos”.

E como vê a investigadora os tempos que vivemos em que países como Austrália, EUA, Alemanha e companhia estão a dar dinheiro aos cidadãos (de forma temporária)? “Temos discutido isso também na Finlândia, se devemos dar dinheiro de forma incondicional a certos grupos de pessoas - depois se já têm emprego e posses pagam mais impostos sobre esse valor - mas deve haver burocracia, ou melhor, análise a cada um”. A Alemanha, que viu há uns meses um tribunal admitir que o trabalhador desempregado não tem a obrigação de procurar ou aceitar um emprego, traça já algumas bases.

O lado positivo do UBI, admite, é dar-nos a possibilidade de sermos totalmente livres, “mas nem sempre sabemos o que é melhor para nós daí que só dar dinheiro não chegue”. É legítimo e ético que as pessoas sintam a liberdade de dizer se um emprego é o melhor para ela ou não, daí que Minna veja o UBI, num nível filosófico, positivo, com o governo a servir os cidadãos, mas o que vemos hoje é o contrário, o governo decide o que os cidadãos fazem.

Algo que está subjacente a alguma críticas face ao UBI, além da questão económica é a promoção da preguiça. Minna admite que a sociedade atual é centrada num emprego, mas mais do que isso “o ser humano precisa é de um propósito”. “Tenho estudado os desempregados e a palavra-chave é motivação. As pessoas têm uma ideia de como querem viver a sua vida, se suprimirmos isso e lhes dissermos que sabemos o que é melhor para elas não a estamos a ajudar. O ideal é mesmo motivá-las de forma criativa, encontrando ocupações e não necessariamente um emprego”.

Já sobre o facto de até publicações económicas como o Financial Times deixarem recentemente avisos sobre a necessidade de um novo contrato social, mais solidário, Minna concorda. “A sociedade atual não dá às pessoas o espaço suficiente, ou a liberdade, se quiserem, de definir quais são as suas próprias motivação, apressa-as para arranjar qualquer coisa que pague as contas”.

E a investigadora admite que vivemos em pleno conflito geracional. “A forma como a minha filha de 13 anos vê o mundo e o que quer ser como adulta é totalmente diferente das gerações anteriores”.

A visão antiga é a vigente, admite. “Quem governa os países são os homens de gerações mais velhas e o seu estilo é manter o regime vigente e perpetuar o seu poder, numa visão muito estática de um mundo que está a mudar na sua base”. Mesmo admitindo que a jovem primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, é uma lufada de ar fresco, a tendência ainda é outra nas lideranças.

“Os jovens hoje não são nacionalistas, não ligam tanto à propriedade ou ao país, são mais globais, vivem na internet onde conhecem pessoas de todo o mundo e viajam mais, ou viajavam”. Daí que Minna admita que há nas gerações mais velhas, dominantes, “muito medo em abrir a porta a medidas próximas do UBI, porque não sabem como as gerações mais jovens iriam reagir nem o que o iria acontecer à nossa sociedade capitalista. Mais: o que aconteceria ao seu poder? O pensamento destes políticos é egoísta: o que aconteceria comigo?”

Esse “grande conflito que se está a gerar” poderá ser resolvido “se os governantes ouvirem mais os jovens e virem o mundo pelos olhos deles”. Quando participa em conferências um pouco por todo o mundo, “os jovens perguntam-se como podem contribuir e fazer ver a sua visão, porque sabem que estão em inferioridade numérica face aos mais velhos e acham que não têm o poder de dizer o que pensam”.

As novas gerações em situações privilegiadas trazem consigo “um desapego ao dinheiro” e focam-se noutros valores como “o tempo para viver que pode passar por trabalhar 3 ou 4 dias por semana, querem viajar e ter um propósito, uma missão, inclusive no trabalho que escolhem”, preferem “não ter carro nem carta para não poluir e gastar o dinheiro em viagens”. E “esta pandemia pode ajudar a dar-nos uma melhor perspetiva da vida”, talvez permitindo aos mais jovens “que já vivem no futuro mostrar aos outros que devem deixar o mundo mudar, mesmo que seja assustador”.

No entanto, vivemos num planeta de sociedades muito divididas, porque há os outros jovens sem grande educação que são levados a ter como objetivo trabalhar por dinheiro numa fábrica - mesmo que vivam numa zona isolada, têm de se mudar -, entrar na média dos 2,5 filhos, ter carro, casa e cão. As mudanças possíveis associadas à pandemia “vão depender da educação de cada um, da idade, do sexo e da zona de residência, urbana ou não”, daí que seja provável que depois da turbulência “muitos voltem ao mesmo caminho e forma de viver, ao seu normal, sem pensar no que se passou”. Depois haverá outros que “acham que devemos mudar algo na forma como vivíamos antes, no consumo que tinham e como cuidam de si o que pode contribuir para mudanças globais”.

Certo é que Minna acredita que em 20 ou 30 anos “vamos ver um grupo de jovens adultos que vão ver o mundo de forma diferente por causa desta pandemia que aconteceu numa altura crucial das suas vidas e isso vai moldá-los”, a especialista acredita, inclusive, que isso também os preparará melhor porque: “acho que haverá outras pandemias”.

O mundo parado desta forma “pode ajudar-nos a voltar ao que é mais básico e a ter uma nova perspetiva da humanidade e da cidadania social”, por isso olhar para o UBI “é excitante”. Mas a realidade é mais dura do que isso. E o que é ir à base social? “É perceber o que é as pessoas precisam verdadeiramente da sociedade atual e agir, ou seja, perceber que uma pessoa pode ser muita coisa ao mesmo tempo, não é só trabalhador, pode ser estudante ao mesmo tempo, ou trabalhar só em part time, tudo coisas com que o sistema atual não lida bem”.

No entanto, as aparências face ao UBI podem ser enganadoras: “parece tão básico, soa a que tudo será mais simples dando dinheiro, mas o que vimos quando implementámos o conceito na Finlândia é que não é simples, mas complicado”. Ou seja, fazer o sistema mais simples é muito complicado, isto porque “implica mudar os sistemas atuais de forma radical e isso demora mais tempo e planeamento do que se possa pensar”.

Por isso, Minna acha difícil que existisse só uma lei para todos, de rendimento universal e incondicional: “seria demasiado simples e as pessoas não são simples”. Mesmo para a reforma da segurança social finlandesa, “ainda não estamos preparados para mudanças radicais”. Ideias como a semana dos quatro dias de trabalho, que também percorreu o mundo das notícias, “mostram como a nossa primeira-ministra é muito corajosa e nos dá muito para pensar”, no entanto, não é fácil dizer que medidas são corretas”.

Minna admite que é necessário mudar, “mas os efeitos de alterações grandes são desconhecidos e isso assusta as pessoas”. “Fazer mudanças a um sistema vigente no planeta traz um lado desconhecido que muitos nunca experimentaram daí que seja necessário experimentar mais”.

Certo é que aquilo a que assistimos hoje, com dinheiro a ser dado, é "um gigante teste social mundial, aos sistemas de saúde, de segurança social, às famílias, aos casamentos, ao ensino". “Os investigadores não têm mãos a medir, há entusiasmo por haver muito para analisar numa altura em que tudo muda todos os dias”, diz.

E é certo que a tecnologia está a fazer a diferença e a chegar a cada vez mais pessoas, levando-as para o mundo digital e a quebrar barreiras, incluindo idosos isolados em aldeias que já comunicam por Skype. Na conversa, a investigadora admite ter dificuldade em escolher o caminho a seguir num próximo trabalho de pesquisa sobre o coronavírus e os sistemas de segurança social “porque está tudo a explodir e não sabemos os efeitos disto tudo”.

E qual a diferença para um idoso atual que passou por uma grande guerra ou um crise financeira intensa? “Essas crises intensificaram a forma patriótica de pensar, mas o coronavírus é um fenómeno global que atira todas as pessoas do mundo para as mesmas circunstâncias ao mesmo tempo - isolamento e as dificuldades que saem daí -, independentemente do contexto. “Quando alguém viajar nos próximos anos para qualquer lugar do planeta, pode sempre discutir com os locais sobre o coronavírus e terá uma compreensão imediata”. Ou seja, mesmo que “nesta altura os países estejam a elevar as suas fronteiras”, no fim de contas, Minna acredita que “esta pandemia pode ajudar a quebrar ainda mais essas fronteiras”.

Voltando ao sistema de segurança social finlandês, em plena reforma, Minna admite que não sabe para que lado vai “virar” e que no seu tempo de vida pode não ver “mudanças significativas”: “ninguém sabe o que vai acontecer e podemos mesmo ter o mesmo sistema complexo em 20 anos, que não é muito tempo para estas mudanças”. Foram feitas mudanças pequenas em 2017, mas houve problemas e “vão mudar algumas coisas”. Alterações maiores só dentro de sete ou oito anos, mas são discutidas agora”. “A tarefa é simplificar o sistema, torná-lo mais compreensível, abolir algumas ratoeiras e hoje temos muito conhecimento sobre os cidadãos que podemos usar inclusive para lhes atribuir ajuda sem eles o pedirem”.