"Elogiar não é tão simples como parece. É uma comunicação social complexa e para trabalharmos a motivação intrínseca da criança temos de fazê-lo de forma equilibrada", alerta a psicóloga Joana Rato. O episódio desta semana do Educar tem Ciência, projeto da Iniciativa Educação, em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo, explorou as últimas descobertas da investigação científica no que toca à prática do elogio.
Quando os alunos não se esforçam, ficam desanimados ou acham a matéria difícil, é normal que os professores tentem arranjar maneiras de elogiar os progressos alcançados como forma de motivação, refere Joana Rato. No entanto, nem sempre esta prática tem o resultado pretendido, alerta a psicóloga. A ciência mostra que cair no exagero é uma má opção. "As crianças vão perceber e os outros também", diz Joana Rato, que cita uma investigação publicada em setembro na revista Science of Learning, que mostrou que os elogios exagerados de professores podiam fazer com que as crianças de contextos socioeconómicos mais baixos parecessem menos inteligentes. "As crianças acabavam por inferir que aquelas que recebiam elogios mais exagerados podiam ser mais trabalhadoras mas menos inteligentes", explica a psicóloga.
A investigação identifica diferentes modos de elogiar, uns mais centrados nas características do indivíduo, outras mais viradas para o processo. E a maioria dos estudos conclui que as crianças que recebem elogios mais pessoais tende a reagir pior perante um fracasso futuro. "Grande parte destas investigações acaba por indicar que o elogio muito pessoal mas genérico - "és muito esperto" -, sem profundidade ao nível do resultado, pode ser prejudicial", alerta Joana Rato, que aponta a diminuição da persistência e no investimento nas tarefas como um dos efeitos negativos. "Se a ideia é valorizar e eu não consigo identificar quando é que fui muito bom, bom ou quando até podia ser melhor, perco a noção do que posso continuar a enfrentar a nível de desafios", explica.
Assim, ao elogiar - que é uma prática a manter! - os educadores devem identificar as boas estratégias que o aluno encontrou para fazer o trabalho, ser específicos "e dar um feedback em que o elogio possa vincular o resultado da tarefa às boas estratégias". "É essencial falar explicitamente sobre as estratégias que o aluno usou e que foram úteis. E, mais ainda, permitir ao aluno explicar como chegou ao resultado e identificar o que foi o seu sucesso para que ele possa perceber o que funcionou bem", diz Joana Rato.
Uma das investigadoras que tem alertado para esta necessidade é a norte-americana Michelene Chi, da Universidade do Arizona, distinguida com o Yden Prize de investigação da educação. "Queremos o aluno faça a avaliação do que foi a sua aprendizagem para que perceba o que tem que melhorar ou se tem de continuar no caminho que está", sublinha a psicóloga. Assim, são de evitar elogios por conquistas triviais - a criança vai perceber a desproporção entre o resultado obtido e o elogio que lhe é dado - e o enaltecimento apenas de características pessoais.
No fundo, trata-se de fazer com que os elogios passem a tratar cada desafio como uma oportunidade de aprendizagem, sintetiza Joana Rato. "Para ter efeitos positivos e ajudar o aluno a compreender a razão do seu sucesso e a ser resiliente ao fracasso, é preciso que o elogio seja sobre o resultado em si, o mais pormenorizado possível e ajustado à realidade. Elogios referentes à própria pessoa e muito inflacionados podem levar a uma imagem distorcida das capacidades do aluno e até fazer com que possa ser menos persistente em futuros desafios", alerta.