Se é verdade que a investigação científica pode dar um grande contributo para a educação, nem sempre a passagem da teoria à prática é simples. Em Londres, o Ambition Institute ajuda a formar professores num terço das escolas de Inglaterra com base em dados e experiências científicas. Miguel Herdade, o seu diretor-associado, debateu o tema da educação baseada em dados científicos com o presidente da Iniciativa Educação, Nuno Crato, no episódio desta semana do Educar tem Ciência, um projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo.
"A evidence based education usa o que os dados e as diferentes experiências nos dizem para responder a uma pergunta muito simples: o que é que funciona e o que é que não funciona?", explica Miguel Herdade, que aponta virtudes a esta abordagem. O trabalho prático com impacto na melhoria da vida dos alunos, o apoio à decisão dos vários intervenientes no processo e a possibilidade de medir e comparar de forma objetiva os resultados obtidos são algumas delas. A isto Nuno Crato acrescenta a possibilidade de "discutir a educação com base em dados não com base em "achismos" ou ideologia".
Miguel Herdade dá o exemplo da iniciativa do governo britânico, que criou os chamados What Work Centres (centros para perceber o que funciona), a quem deu o aval para estudarem os dados revelados pela investigação científica e conduzirem pequenos projetos-piloto. Muitos destes estudos levam a mudanças nas políticas públicas. Foi o caso da experiência conduzida em Inglaterra há cerca de 20 anos, com o intuito de perceber qual seria o melhor método para as crianças aprenderem a ler: o método fónico ou o chamado método global. "Em 1999, investiram 69 milhões de libras nesta experiência e, em 2005, foram ver o que aconteceu e hoje em dia usam o método fónico. Não sabemos se foi uma relação causal, mas, no ano passado, Inglaterra foi o melhor país, do Ocidente, no nível da leitura dos alunos do 4.º ano do PIRLS", conta Miguel Herdade.
Por seu turno, Nuno Crato lembra o caso português em que foi usado o chamado "método quase experimental" para tentar perceber qual a melhor opção no que toca à idade de entrada na escola. "Este método separa os alunos que tinham de entrar porque atingiram o limite de idade e os que não entraram porque não atingiram aquele limite de corte. E estão separados por uma semana. Não se pode dizer que os mais velhos uma semana são mais maduros, mas pode-se segui-los e verificar se os alunos que entraram na escola mais cedo têm depois melhores resultados. E a conclusão é que se chega é que é melhor esperar um ano", explica Nuno Crato, advertindo que este é um resultado estatístico. "Há miúdos que devem ir o mais cedo possível e outros que não. Isto é ciência no sentido em que mostra que, na sua grande maioria, isto parece mais positivo. Depois, as escolas, os pais, vão decidir".
O que leva Miguel Herdade a sublinhar a importância da utilização da ciência e dos dados no apoio à decisão. "É difícil fazer mudanças no sistema: os pais têm opiniões fortes, os professores e os decisores políticos também. E isto pode ser muito útil para desmistificar o chamado senso comum, que pode estar errado", defende.
"Os dados que temos hoje (do PISA, do TIMSS, os chamados dados administrativos) dão-nos a possibilidade de analisar o impacto de políticas como nunca tivemos", sublinha Nuno Crato. "Nada se faz com seriedade sem medir e avaliar. Essa medição e avaliação pode ser feita com base em estatísticas, na economia da educação, nas neurociências, nas ciências cognitivas. E ajuda-nos a andar para a frente. Essa é a importância da evidence based education", conclui Miguel Herdade.