"É urgente travar a fuga de talentos"

Na tecnologia, Portugal não vive com medo do desemprego. Há mais trabalho que pessoas, os salários são competitivos e a procura enorme. O desafio é a retenção.
Publicado a

Se no geral Portugal é conhecido por ser ainda um país de salários baixos, em que todos os anos se discute um salário mínimo que se fixa agora nos 705 euros, a situação é radicalmente diferente quando se analisa o segmento da tecnologia. Aqui, o cenário é de procura a exceder, e muito, a oferta e o desafio cada vez maior reter os que aqui temos. Os recursos humanos nacionais, principalmente quando ganham alguma experiência, quando estão valorizados, tornam-se irresistíveis - e facilmente alcançáveis - para o mercado externo.

"Precisamos de cinco vezes mais profissionais qualificados nestas áreas, e não os temos", resumiu Tiago Mendes Gonçalves, CEO da Innowave, no debate sobre "A revolução tecnológica na sociedade da era 5G". E verdadeiramente diz tudo. Com a agravante de que "a covid veio desmistificar a ideia da necessidade de estar perto do cliente, o que aumentou a procura e fez disparar os salários". Hoje está provado que se pode trabalhar em qualquer parte do mundo. E o resultado é que os jovens técnicos e engenheiros, portugueses, ao fim de dois ou três anos de experiência, ganham visibilidade e são aliciados por empresas internacionais, com capacidades financeiras que as nacionais, na maioria das vezes, não conseguem suplantar.

Esta realidade levou os vários intervenientes do debate a concluir que, em Portugal, mais do que conseguir atrair talento, o problema é mesmo retê-lo. É formar e potenciar a reconversão de talentos. Principalmente porque, como refere o responsável máximo da Innowave, o talento português é "fenomenal" e as nossas universidades são de "topo". Mas com concorrência global, para as empresas portuguesas o que poderia ser uma vantagem transforma-se num handicap.

A solução, para André Ribeiro Pires, executive board member & COO da Multipessoal, passa por apresentar projetos atrativos que suplantem a parte (menos interessante) do diferencial do vencimento. Ainda que, embora a questão da atração dos projetos seja importante, André não a aponte como único problema do nosso país. As empresas portuguesas precisam de investir na conversão e reconversão de carreiras. Desta forma, tornar-se-ão atrativas e conseguirão atrair e reter talento nacional e estrangeiro. E aqui a simplificação da burocracia tem um papel fundamental, dado que ainda é um entrave.

Por outro lado, há que ter em conta o papel da tecnologia e de todo um conjunto de novas profissões que abarca agora todos os setores da economia.
Francisca Leite, diretora do Hospital da Luz Learning Health, deu como exemplo o caso da saúde, onde a multidisciplinaridade das equipas é cada vez mais importante. Numa altura em que se passa de uma gestão da saúde para a gestão da doença, em que a saúde é cada vez mais personalizada e dependente da análise de dados obtidos de cada doente, os engenheiros de dados e profissões semelhantes ganham peso. "Se o futuro passa pela inteligência artificial então serão necessários engenheiros e cientistas de dados, capazes de os recolher e trabalhar." Porque serão estes que permitirão ter a saúde do futuro, uma saúde de precisão, personalizada, que tenha em conta a condição dos doentes e que atua mais ao nível da prevenção. Para a executiva, a inteligência artificial será um dos principais fatores que irá mudar o rosto da medicina, a par do 5G e do blockchain.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt