June Bolneo nasceu nas Filipinas há mais de três décadas, aderiu ao trabalho remoto há oito e vive em Portugal desde 2016. Esta filipina que ainda não domina o português mas a quem não falta entusiasmo admite ser uma privilegiada por poder viver onde quer e trabalhar no que a apaixona. E o que é isso? Espalhar a palavra sobre o trabalho remoto ao máximo número de pessoas, especialmente a quem vive em zonas rurais ou fora das grandes cidades - o que faz dentro da ONG dedicada ao tema, Grow Remote (sediada na Irlanda)..Foi há oito anos que começou a trabalhar de forma remota e foi nesses pressupostos que fundou uma agência de marketing digital sediada em Nova Iorque - The Digital Force. É essa empresa que lhe paga as contas, mas tem alguém a gerir a empresa por ela para se poder dedicar, a partir de Lisboa, à Grow Remote..“Há muitas vantagens no trabalho remoto, não só para as empresas, mas especialmente para os trabalhadores, daí que já seja visto como uma forma de se atrair e manter talento”, explica June, que congratula-se com o que a tecnologia já permite nesse domínio. O surto do coronavírus Covid-19 está a ser um impulso para este tipo de trabalho, “ao ponto de pressionar as pequenas e grandes empresas”..Da lista de vantagens, June destaca também “a qualidade de vida dos trabalhadores, que deixam de perder tempo a ir para o trabalho e, claro, o ambiente agradece com a redução de emissões, como vimos ainda agora na China [reduções de 25% nas emissões de carbono para a atmosfera]”. Além disso, fica potenciada a flexibilidade de horários e até a possibilidade de ter períodos de tempo de maior trabalho, para poder ter menos horas noutra altura mais vantajosa. “Pode melhorar o equilíbrio entre vida familiar e trabalho e motiva muitas pessoas a manterem-se numa empresa, aumentando a produtividade em muitos casos”, admite..Viver em Lisboa foi uma decisão pessoal, depois de ter passado algum tempo em Barcelona, Bruxelas e Frankfurt. “Apaixonei-me por Lisboa e tem mais coisas em comum com o meu país, as Filipinas, inclusive o tempo”, explica. Vive na capital portuguesa há cerca de dois anos com a filha e há cerca de um ano que tem intensificado o trabalho com a Grow Remote. Da comunidade, que se junta através de um grupo na plataforma Slack, fazem parte voluntários que são CEO ou fundadores de empresas e vários lideram equipas de trabalho remoto e que se focam no que chamam o futuro do trabalho. Este mês vão-se reunir presencialmente..Desde o início do ano tem sido um aumento do interesse por aquilo que faz com a Grow Remote em Portugal. Em janeiro fez, em conjunto com outros voluntários de Lisboa (existem portugueses, alemães e brasileiros), um workshop (para 20 a 30 pessoas) sobre trabalho remoto em Aveiro. O mês passado foi em Évora e agora segue-se Ericeira e Vila Nova de Milfontes. “Em cada zona tentamos ter um voluntário da zona para ajudar depois os interessados em aderir ao trabalho remoto”. O que fazem é transmitir técnicas e hábitos para as pessoas de cada zona ficarem à vontade com o trabalho de casa e colocam-nos em contacto com empresas internacionais dedicadas ao trabalho remoto..Já fez palestras na Startup Lisboa sobre o tema e, recentemente, começou a trabalhar com uma grande empresas portuguesa e com um município (que não sabe se pode revelar) em projetos piloto para implementar o teletrabalho. June acredita que além do setor privado, há um potencial enorme para os serviços públicos..Também têm tentado, com ajuda de especialistas, dar ajuda legal a empresas para contratar trabalhadores remotos, mas também mostrar formas de dar segurança no trabalho e seguro de saúde a esse tipo de colaboradores..Dentro dos conselhos que costuma dar lembra sempre que convém ter uma boa ligação de internet e evitar que alguém ocupe da banda larga com o uso, por exemplo, de Netflix: “Pode afetar videoconferências que se tenham de fazer”. Além disso, é importante não ter os filhos em casa e evitar distrações, bem como criar períodos de trabalho e de pausa para “saber desligar”..Nesse aspeto, mesmo que se possa trabalhar ocasionalmente em cafés, coworks ou jardins, “a primeira coisa que se deve fazer quando se começa a fazer teletrabalho é criar um espaço dedicado em casa para isso”. O que permite? “Ajuda a haver melhor separação mental entre vida pessoal e trabalho”. “As pessoas devem tomar banho e vestir-se como se fossem para o escritório, porque isso ajuda a mente a perceber que agora é período de trabalho”, aconselha, já que é preciso replicar a transição casa-trabalho que existe quando se vai para o escritório..Várias das empresas que contratam trabalhadores remotos já disponibilizam um kit (a First Base é uma startup americana dedicada a fazê-los) que incluem escritório completo, da secretária, à cadeira, computador, VPN, fios de ligação, etc..Além destas técnicas para não se misturar trabalho e vida pessoal, lembra que há muito que o trabalho remoto não é exclusivo de empregos nas áreas tecnológicas. Desde contabilidade, a serviços financeiros, de marketing ou corporativos, traduções, passando pelo design e até à área da saúde (graças às consultas remotas) são setores que permitem, dependendo dos trabalhos em concreto, o teletrabalho. O mesmo já acontece com a manufatura, especialmente quando são tarefas muito específicas que alguém pode fazer criando uma oficina em casa, por exemplo..June distingue ainda o trabalhador remoto do chamado nómada digital. “O nómada vai mudando de residência passando em pouco tempo por cidades diferentes, o trabalhador remoto tem residência fixa e trabalha de lá”.