Miguel Sousa Tavares: "Abomino nouvelle cuisine, cozinha de tias e fast-food"

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Um jantar de Ano Novo, há uns anos, no seu monte alentejano, para

24 amigos, fez nascer a hipótese de Miguel Sousa Tavares se lançar

no "género literário 'culinário'", segundo conta o próprio,

na Entrada do seu novo livro Cozinha d'Amigos.

Mas foi há uns

tempos, vendo-se sozinho em Lisboa depois de ter ido às compras e

ter trazido para casa um bocado de pão preto de centeio e um grande

carabineiro vermelho-escuro fresquíssimo, que nasceu um prato

maravilhoso e a ideia de escrever um livro. Um livro "não sobre

culinária, para o que me falta qualquer qualificação em absoluto,

mas sim um livro sobre a evidência da cozinha, sobre a superioridade

da cozinha natural, simples e de amigos, sobre a famigerada cozinha

de autor, em que o autor é sempre mais importante do que os produtos

que usa", justifica.

O escritor de Equador, entre outros best-sellers, que confessa não

apreciar a nouvelle cousine - "não me peçam para apreciar as

infusões gasosas de melancia com sardinha, do Ferran Adrià (que já

experimentei)" - defende que "uma boa cozinha é outra coisa: é,

por exemplo, numa manhã de caça no Alentejo, na madrugada gelada de

um dia de Dezembro, acender a lareira na sala de jantar e ter a

inspiração de servir uma açorda alentejana ao pequeno-almoço das

sete da manhã!"

Mas até chegar aqui, o autor, que conta que em jovem o que melhor

sabia cozinhar era peixe grelhado e bife com batatas fritas, foi

cozinhando - experimentou, inventou, falhou vezes sem conta, até

acertar algumas. Aponta o exemplo da sua primeira criação: um

esparguete de santola, que ainda hoje não viu replicado. "E fui

por aí fora, cozinhando cada vez mais - por necessidade, por

prazer, ou só por distracção", lembra o autor que estabeleceu 20

regras essenciais para a sua cozinha. " Todas com o mesmo fim de

partilhar memórias, receitas, tiques, hábitos na cozinha, manias,

teorias, e até estados de alma de um escritor que em entrevista ao

Dinheiro Vivo revela que adorava ter um restaurante que honraria a

melhor cozinha portuguesa

Porque escolhe 24 amigos e não 12, por exemplo? Dava-lhe menos

trabalho.

Porque só cabem 24 na mesa e eu gosto de esgotar a mesa. Quando

desenhei a sala de jantar imaginei-a cheia, com 24 pessoas à mesa.

Às vezes sonhamos e as coisas não batem certo, mas aqui bateram.

Porque abomina a nouvelle cousine e diz antes preferir a "comida

de tias"?

Bem, eu não prefiro nem uma nem outra. Na minha galeria de

horrores culinários, há três variedades que abomino por igual:

nouvelle cuisine, "cozinha de tias" e fast-food americana.

Ainda assim tem algum cozinheiro ou chef que admire - um Anthony

Bourdain desta vida? Um português - e agora há tantos?

Admiro vários, acho que temos excelentes cozinheiros, mas não

quero dizer os nomes porque fatalmente me iria esquecer de alguns ou

ignorar outros cujos nomes não sei.

Concorda com Maria de Lurdes Modesto quando diz qualquer coisa

como que agora aos homens basta descascar uma batata para serem logo

considerados chefs?

Não, não concordo. Aliás, penso que é muito curioso verificar

que quando os homens (que viram as mulheres chegarem a várias

profissões que eram exclusiva coutada masculina), retaliaram,

ocupando esse território feminino da cozinha, esta ganhou uma

dimensão que não tinha até aí. Penso que a afirmação da Maria

de Lurdes Modesto, que muito respeito, é de mau perder. Apesar de

muitas e brilhantes excepções (a Justa Nobre, entre nós, por

exemplo), hoje quem mais brilha na cozinha são os homens. Mas - que

isto fique bem claro- nada disto tem que ver com o meu caso: eu sou

apenas um curioso que cozinha para amigos, de vez em quando. É outro

campeonato.

O que o leva a decidir fazer determinado prato em detrimento de

outro para os amigos, mulher ou para si?

O que encontro no mercado. É só isso que pode mudar o meu plano

de batalha previamente estabelecido. Há uma frase, que eu aplico às

viagens, e que também se pode aplicar quando vamos ao mercado: não

se encontra o que se procura mas o que se encontra.

É defensor do aproveitamento dos restos?

Defensor sou, praticante não. Depois de cozinhar um prato, fico

farto dele.

Diz que o seu livro reflecte a filosofia dos homens-cozinheiros

domésticos da geração dos Beatles. Aqui mulher também não entra

(tal como na cozinha) no que diz respeito aos ensinamentos ou

inspirações na sua "aprendizagem"?

Não. Nem mulher nem homem. E, se bem que eu tenha feito um curso

de cozinha, tudo o que verdadeiramente aprendi a fazer acho que foi

sozinho ou, quando muito, observando os outros fazer.

É fervoroso adepto dos produtos nacionais e naturais. Onde se

abastece? tem fornecedores fixos e de confiança?

Abasteço-me nos mercados de bairro, sempre que posso. E, em

Lisboa, no único supermercado de qualidade e cujo nome não vou

dizer mas que todos os cozinheiros sabem qual é.

Aponta 20 regras na sua cozinha, destaque, resumidamente, as dez básicas, básicas!

Não consigo destacar só dez; as 20 são, para mim, igualmente

importantes. Mas posso dizer três coisas que me são essenciais na

cozinha, tal como o são em toda a minha vida: tempo, espaço,

silêncio.

Prato preferido para confeccionar e porquê?

Aquele que invento na hora, com produtos que encontro na despensa

ou no frigorífico e que não tinha imaginado antes.

Prato que jamais faria e porquê?

Tudo o que meta molhos espessos, queijos gratinados, nabos ou

salmão de aviário. Em contrapartida, acho fabuloso uma moreia

frita, espalmada em caninhas e seca ao sol.

Não é este livro reflexo de um gosto tão profundo que poderá

levá-lo a lançar-se num restaurante? Afinal, é uma actividade que

convive bem com os livros.

Acabou de desvendar o meu sonho mais secreto! Adorava ter um

restaurante e tenho algumas ideias bem assentes para um restaurante

que honraria a melhor cozinha portuguesa e faria da simplicidade a

sua marca distintiva. Mas também sei que escrever e ter um

restaurante são actividades incompatíveis, em termos de ocupação

de tempo. E eu prefiro escrever.

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