A 20 de janeiro, há dez anos, as receitas geradas pelo jornal mais lido em papel no nosso país já superavam as do site líder de audiências. Recordo-me que um dia de receitas no papel equivalia a 30 dias no online (a esta distância, perdoem-me se falho por uns dias, poucos dias). Mas para uma análise mais macro, o que importa é que, sensivelmente, a meio do mês de janeiro já as receitas acumuladas no papel superavam as do online. É certo que nessa altura era muito mais fácil do que hoje distribuir o conteúdo noticioso no Facebook, que estava em ascensão e não era ainda dominado pela atual estratégia comercial, e por isso as audiências cresciam em flecha e, com elas, ficámos todos dependentes desta rede social (que era dominante, valia em muitos casos 90% dos leitores). Os algoritmos iam mexendo a pouco e pouco, para susto de todos, e começou a surgir a necessidade de encontrar alternativas rápidas. Já estávamos em 2016 e à medida que iam caindo as receitas no papel, o digital ia ganhando tração e foram surgindo cada vez mais publicações online geradoras de receitas crescentes. O problema é que o jornalismo de qualidade “competia” pela atenção do leitor com publicações online sem respaldo dos valores e garantias jornalísticas no tratamento da informação. Daí até a desinformação ganhar terreno, foi um passo. Faltou-nos separar o trigo do joio, mostrar ao leitor o valor do verdadeiro jornalismo (investindo na literacia, obviamente) e que esse trabalho, como qualquer outro trabalho, é pago..Uma boa parte dos salários que as pessoas recebem em Portugal não chegam até ao final do mês - ainda para mais, com a subida do custo de vida nestes quase dois anos. Mas não receber qualquer salário é pior ainda, como todos sabemos. Não são só os patrões que devem pagar salários - é, aliás, impensável que não o façam, é inaceitável -, mas o jornalismo é um serviço tão imprescindível para uma sociedade democrática, que os próprios leitores têm de contribuir, por sua iniciativa, para esta independência que escrutina os poderes e que dá voz a quem mais precisa numa situação de crise, que mostra que há um país muito desigual territorialmente nas suas vivências, como nos aspetos socioeconómicos, de acesso a transportes, à saúde, à educação, à justiça - enfim, é um país pequeno, mas muito desigual. Podem dizer que este discurso é naife. Tudo o que é básico soa sempre a naife. Mas para suprir a necessidade de se fazer jornalismo de proximidade é preciso que os jornalistas sejam retribuídos. É preciso fazer mais investigação, mas custa dinheiro. É preciso aumentar a qualidade e abrandar a quantidade que nos esmaga, mas também isso é caro..Não é nada que seja diferente noutra profissão. Quantas vezes preferimos pagar mais 10 cêntimos que seja por um serviço que é melhor do que outro? Só precisamos de escolher qual o melhor para nós. Ora pagar por bom jornalismo obriga a que o leitor escolha o melhor para si - tem de ler e comparar; e se tiver de pagar mais um pouco, por que não? Aqui podemos sempre voltar ao problema dos baixos salários, mas é onde o Estado pode intervir. Falamos hoje do financiamento do jornalismo (pode ler o artigo Salvar o jornalismo, a bem da democracia), que, bem a propósito do 5.º Congresso dos Jornalistas, que por estes dias se realiza em Lisboa, e é cada vez mais notório que se caminha para um acordo dos partidos para que sejam tomadas medidas importantes para a Comunicação Social (que se quer livre, independente, sem interferência política ou interesses empresariais)..Recentrando o argumento, vale a pena pensar no dia em que deixámos de mostrar ao leitor que ele importa e que importa tanto que tem de pagar para ler bom jornalismo e que não é com a proliferação de ferramentas como redes sociais, como o Instagram ou o TikTok, ou com a hegemonia da Google, que nos temos de preocupar em primeiro lugar. Mas antes com a forma como servimos ao leitor o valor do jornalismo de qualidade e do serviço pelo qual está disposto a pagar.