Esta semana, durante a sua intervenção na Universidade de Verão do PSD, a comissária europeia com o pelouro dos Serviços Financeiros e União de Poupança e Investimento, fez algo que, em Portugal, ainda é raro em política: mostrou-se arrependida. Arrependida e favorável à reversão de uma medida que tomou quando ocupava o cargo de Ministra das Finanças. Entre 2013 e 2015, Maria Luís integrou o Executivo de Pedro Passos Coelho, estava Portugal sob intervenção da chamada troika – o triunvirato constituído por Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu.Na altura, uma das medidas implementadas pela tutela foi o aumento em sete pontos percentuais da chamada taxa liberatória – o imposto aplicado sobre juros de depósitos, rendas e rendimentos de capital. Ainda hoje, a taxa liberatória está fixada nos 28%“Há uma medida que eu não gostei nada de tomar e que, hoje, com as funções e a responsabilidade que tenho, ainda gosto menos: foi quando aumentámos a taxa liberatória dos 21% para os 28%”, disse Maria Luís Albuquerque. Acrescentando: “Esta é uma decisão que eu gostaria de poder não ter tomado” e que, se voltasse a ser ministra das Finanças, cenário que afastou, “gostaria de reverter”.Numa altura em que a grande maioria dos nossos governantes está cheia de certezas, mesmo quando elas lhes vão explodindo na cara numa sucessão de decisões que nem sempre são acertadas – algo que faz parte da condição humana e que, em si, não tem nada de dramático – as palavras de Maria Luís Albuquerque surgem como uma espécie de brisa no deserto, que nos enche de esperança. Não porque a Comissária vá reverter algo do que fez, mas porque dá um sinal importante: a de que até os mais firmes e assertivos governantes são, mesmo que a posteriori, capazes de admitir que erraram.Apesar de continuar a defender que não tinha muitas hipóteses em relação à necessidade de aumento de impostos, facto é que aumentou uma das taxas que mais penaliza as poupanças de um povo que já tem, historicamente, taxas de poupança significativamente abaixo dos pares europeus – no primeiro trimestre deste ano a taxa de poupança, em Portugal, era de 12,2%, abaixo dos 15,7% da média europeia, segundo dados do Banco de Portugal.Emendar a mão – de preferência quando ainda se pode ser consequente – é algo que não é muito bem visto no nosso país, onde a aversão à admissão do erro nos impede, muitas vezes, de arriscar e crescer mais. Como na ciência, também nos negócios e na governação não há forma de fazer melhor sem errar. Encarar o erro como parte do processo, aprender com ele e tentar fazer melhor é o que nos faz ser melhores. Daí que esta afirmação da antiga ministra das Finanças, ainda que possa vir tarde, seja tão importante. Porque nos recorda a todos – e sobretudo aos seus sucessores – da importância de avaliar de forma séria e comprometida as decisões que são tomadas em cada momento. Para que, havendo contexto que o permita, se possa recuar no caso de se chegar à conclusão de que a decisão foi errada. Historicamente, não foi quem achou que fez tudo certo que marcou o curso da nossa existência. Foi precisamente quem sempre teve noção das suas limitações e não teve medo em assumi-las. Tal como Albert Einstein, cuja frase dirigida a um dos seus estudantes, certa vez, devíamos todos carregar connosco na memória: “Não precisas de ter tanto cuidado... Também há papers incorretos com o meu nome”.