Como aquele marido que está ao lado da mulher nos piores momentos da vida até ela perceber que é ele o culpado de todo o mal que lhe acontece, no balanço do primeiro ano da maioria absoluta, oitavo como primeiro-ministro de um país cada vez mais miserável às suas mãos, António Costa não se lembra de ter governado "um só dia em situações fáceis". Faltava só a lágrima que um Daniel Oliveira como entrevistador sem dúvida garantiria. "O que dizem os seus olhos?" E o pobre governante incompreendido revelaria em voz entrecortada como tem sido injustiçado, com detalhes de fazer chorar as pedras da calçada.
O homem que tomou o governo de um país acabado de sair de um dos piores momentos da sua história, com a troika de malas aviadas para abalar e sem oposição ou contestação social, que recebeu a maior injeção de dinheiro grátis de sempre da bazuca europeia, que beneficiou de taxas de juro a zeros e programas de compra de dívida inéditos pelo BCE, que alimentou a sua obesidade governativa com manápulas sedentas de impostos que renderam recordes num ano de inflação galopante a suceder outro do maior aumento de carga fiscal paga pelos contribuintes, veja bem, não teve dias fáceis.
O chefe de governo que põe e dispõe do país e dos portugueses sem contemplações desde que isso sirva os seus planos pessoais, que não hesita em lançar suspeitas sobre as empresas mas fecha a boca sobre os resultados do banco público, que despreza sem disfarçar a iniciativa privada apesar de dela depender para conseguir pagar salários e despesas, para o país criar emprego e riqueza que lhe rende milhares de milhões em impostos, para poder dizer que há remunerações acima do salário mínimo. Ele é, entenda-se, uma vítima das circunstâncias.
O "líder" que durante quase uma década esteve ao leme de sucessivos governos manchados por escândalos e casos de polícia e de justiça, que destruiu o SNS e assinou a sentença de morte da saúde, que pôs a agricultura em coma e implodiu o sistema educativo, que nacionalizou uma companhia aérea e com ela gastou milhares de milhões para a privatizar de novo, que quer esmagar o Alojamento Local sem pensar um minuto nos efeitos que isso terá no turismo e na vida de quem nele tem um complemento de rendimento, que nos quer convencer que o património imobiliário do Estado e os fundos públicos não devem servir para resolver a crise da habitação porque essa obrigação é dos privados, que esperou um ano até agir contra uma inflação sem precedentes na vida da maioria dos portugueses e agora se diz tão preocupado com quem não tem rendimentos equiparáveis aos dele... Esse "líder" é afinal um pobre coitado a quem todos dificultam a existência e cujas boas intenções boicotam.
Pobre António Costa, que teve de contratar um batalhão de spin doctors - milhares de euros que podia dedicar a objetivos altruístas se os portugueses não fossem tão incompreensivos - para limpar a imagem de oito anos de péssimas decisões com ainda piores resultados, fruto de devaneios totalitaristas e escolhas miseráveis, e ainda assim tem de encarar a falta de reconhecimento dos dois terços que consideram a sua governação má ou péssima.
"Não se pode governar só para os aplausos", conclui, com visível tristeza. Pois alguém devia explicar ao primeiro-ministro que uma coisa é não recolher aplausos por ter de se tomar decisões difíceis. Outra é ser apontado pela incompetência reincidente na governação. E mais importante: que o poder não é de António Costa, é dos portugueses - que, tal como o elegeram, podem exigir a sua saída. Mesmo com uma maioria absoluta e créditos financeiros para pintar os lábios ao porco quando for tempo de ir a votos.