Por uma accountability inteligente  

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Numa economia global complexa e com níveis acrescidos de concorrência internacional, a a qualidade da accountability acaba por ganhar uma nova dimensão estratégica. O modelo tradicional de criação de valor mudou por completo e nesta fase crítica da economia portuguesa a aposta tem que ser clara - apoiar novas empresas, de preferência de base tecnológica, assentes numa forte articulação com centros de competência e capazes de ganhar dimensão global. Ganhar o desafio de uma economia mais inovadora e competitiva passa em grande medida pelo papel que os contabilistas certificados, enquanto orquestradores de uma agenda de criação e sustentação de valor, têm que saber ter neste processo. O Congresso da OCC realizado a semana passada foi o exemplo da demonstração da importância deste novo contexto de accountability.

O primeiro grande vetor desta afirmação da accountability passa pela ativação positiva de uma cultura de inteligência competitiva. Como muito bem destacou a Bastonária da Ordem Paula Franco, "importa mais do que nunca saber procurar ter uma cultura de accountability rigorosa e participada que reflita a realidade da organização nas suas diferentes dimensões de gestão de risco e de organização da sua cadeia de valor". O papel das pessoas na gestão operacional dos negócios passou a ser cada vez mais importante e nesse sentido importa definir uma agenda estratégica clara e facilmente percebida pela organização - o congresso da semana passada evidenciou este tópico com vários testemunhos e casos práticos que vale a pena ter em conta neste novo contexto de recomeço que a economia e a sociedade está a viver.

Uma accountability não se define por decreto. Assenta num contexto e conceito de capital estratégico que importa construir neste novo tempo. O exercício de maior seletividade nas apostas empresariais e na qualidade do financiamento e de maior atenção operativa a uma monitorização dos resultados conseguidos terá que ser acompanhado desta acção global de qualificação sustentada que se pretende para a gestão empresarial. Não se realizando por decreto, não restam dúvidas que esta acção de competence building das nossas estruturas empresariais será um exercício inteligente que passa por um compromisso entre o respeito pela tradição corporativa e o papel que a inovação terá que ter neste processo. O contabilista certificado terá que ser neste contexto um ator de inteligência competitiva partilhada em rede.

Cabe às empresas o papel central na criação de riqueza e promoção duma cultura sustentada de geração de valor, numa lógica de articulação permanente com universidades, centros I&D e outros actores relevantes. São por isso as empresas essenciais na tarefa de endogeneização de activos de capital empreendedor com efeito social estruturante e a leitura da sua prática operativa deverá constituir um exercício de profunda exigência em termos de análise. O contabilista certificado tem que ser um indutor de modernidade estratégica nas organizações, dotando-as de um sentido de aposta estrutural na procura do valor e da excelência como fatores centrais de uma nova competitividade para a nossa economia e sociedade. O economista tem que ser um driver de mudança positiva para o futuro.

O congresso que os contabilistas certificados tiveram a semana passada foi mais um momento muito especial de reflexão e partilha sobre a importância de fazer da accountability um driver de criação de confiança no desafiante processo de criação de valor empresarial. Muito oportuna a reflexão que a Bastonária Paula Franco deixou a propósito desse novo sentido de responsabilidade e ética social que as nossas organizações empresariais têm pela frente onde o papel do contabilista certificado será certamente um ativo a ter cada vez mais em atenção.

(Nota: O autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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