Responsável por iniciativas ligadas aos recursos humanos, Carla Ascensão é head de formação e desenvolvimento na Nova SBE, universidade com ecossistemas próprios de inovação e que aposta na educação das lideranças atuais e do futuro.
Já não podemos falar em reter talento, mas sim em retê-lo por mais tempo. Criar desafios, proporcionar mobilidade interna e envolver os colaboradores em projetos de inovação são formas de contornar a dificuldade em reter talento.
Os líderes têm de ser camaleónicos na sua forma de gerir pessoas, até porque o talento também se vai embora porque os líderes acham que as pessoas é que têm de se adaptar à sua gestão, quando é o oposto. Só desta forma vamos conseguir reter talento mais tempo, mas já não existe a ideia de reter talento para sempre.
Antigamente, víamos uma grande dedicação das pessoas perante as suas empresas, mas atualmente os profissionais estão mais atentos às tendências de mercado. Esta perspetiva faz com que as pessoas queiram novas experiências e alargar os seus horizontes. Se sentem que não há mais nada a aprender onde estão, facilmente saltam para outra organização, dentro ou fora de Portugal.
Portugal ainda tem uma visão muito legalista dos recursos humanos, o que se traduz em práticas obsoletas. Além disso, tem um grande problema com o "presencialismo". O controlo de horários e do tempo de secretária está muito enraizado, é uma questão que vai exigir mudança cultural. O mercado de trabalho é global e não se pode limitar a estratégia de recrutamento com base no "presencialismo" - o que interessa é o talento, não onde ele está.
Os aumentos salariais são muito importantes, mas a novidade desvanece-se no tempo, até porque, muitas vezes, uma parte desse dinheiro nem passa pela conta do colaborador devido à carga fiscal que as empresas têm de suportar.
Há diversas coisas que se podem fazer: desde a formação formal à formação on job, até ir a outras empresas comparar experiências ou realizar workshops. São soluções de baixo custo para as empresas, mas de alto impacto para os colaboradores. Cabe às organizações fazerem os profissionais sentir que não são só mais um número, mas sim que têm um papel a desempenhar.
Ainda trabalhamos um bocadinho com um país que funciona a dois tempos. Por um lado, a academia já trabalha a mentalidade das lideranças do futuro, através dos alunos de licenciatura e mestrado que, um dia, terão o seu impacto em termos de decisões.
Claro que, para já, o seu poder para fazer mudanças ainda é limitado, porque têm ainda um percurso profissional a percorrer. Por outro lado, é importante formar os executivos que já são os líderes do presente e existem iniciativas nesse sentido.
Nos últimos anos, já se sente uma diferença considerável nas lideranças formadas, mas há ainda uma franja que não chega às salas de aulas e que é o grosso do mercado.