Portugal tem "sofrido bastante" com a disrupção das cadeias de fornecimento de componentes eletrónicos, garante o CEO da Siemens Portugal, que considera que esse constitui mesmo o "problema número 1 da indústria hoje" no país.
Falando aos jornalistas no stand da multinacional alemã na Hannover Messe, a feira de tecnologia e indústria que amanhã termina na Alemanha, Pedro Pires de Miranda admite que a grande preocupação com os componentes eletrónicos não é com o seu preço, mas com a falta dos mesmos. "Não podemos fazer o scale-up da produção. Os clientes querem e pedem-nos projetos, que não conseguimos executar", garante.
Segundo este responsável, a situação foi agravada pela guerra na Ucrânia, que veio criar "um problema adicional" que ninguém esperava. "O calcanhar de Aquiles da Europa é não termos a cadeia de fornecimento de componentes eletrónicos dentro do território europeu", diz, defendendo que a deslocação de investimentos do Leste "pode ser uma grande oportunidade para Portugal".
Com 3.150 funcionários de 58 nacionalidades distintas, a Siemens Portugal pretende chegar a 2025 com 3.500 trabalhadores, um objetivo que Pedro Pires de Miranda admite poder ser alcançado mais cedo. "Estamos no bom caminho de alcançar essa meta, dentro do ecossistema exportado em que nos inserimos, e talvez até a possamos atingir mais rapidamente", defende. A empresa, que constitui o terceiro maior empregador de capital alemão no país, tem contratado, em media, 300 pessoas ao ano, "maioritariamente licenciados".
Com 260,7 milhões de euros de volume de negócios à data de 30 de setembro, no fecho do exercício de 2021, e 158,8 milhões de exportações, a Siemens Portugal é a 10ª maior companhia alemã no país em termos de faturação e o 11º maior exportador. Com uma aposta na exportação tanto de bens como de sistemas de engenharia, a empresa conta com 1400 clientes em 37 países.
"A nossa força como empresa está na exportação. Estamos a crescer de acordo com o crescimento a economia portuguesa", frisou.
A empresa levou à Hannover Messe alguns casos de estudo de projetos desenvolvidos a partir da engenharia portuguesa para o mundo, caso do software desenvolvido para o setor dos terminais portuários de contentores, que pretende otimizar a gestão de toda a carga, reduzindo significativamente os tempos de espera. Um projeto implementado em Leixões mas também em vários outros países europeus, do Médio Oriente e de África, designadamente em Espanha, França, Inglaterra, mas também no Egito, Dubai e Arruba, entre outros.
Já o sistema de localização em tempo real desenvolvido pela Siemens Portugal, em parceria com a Introsys, para a Autoeuropa, que permite saber sempre onde estão os veículos autónomos que circulam na fábrica de Palmela e otimizar o seu fluxo, tem potencial para ser replicado noutras fábricas do setor automóvel e não só.
"Este projeto, que aproveitamos para divulgar aqui na feira, teve uma repercussão bastante interessante dentro do contexto não só o grupo Volkswagen internacionalmente, mas também da Siemens. É uma tecnologia que está a vingar e vai ser replicada em diferentes projetos, não tenho qualquer dúvida disso", avançou o responsável da área da indústria e da digitalização na Siemens Portugal. Luís Bastos admite "há uma série de projetos" que estão a ser estudados com parceiros para tirar partido dos benefícios desta tecnologia, designadamente nos setores da têxtil e do vinho, em Portugal. "Qualquer industria que precise de localizar ativos "dentro de casa" é candidata a este projeto", avança Luís Bastos, lembrando que, "sem saber o que possui e onde está dificilmente [uma empresa] consegue ter uma gestão eficaz e eficiente".
E até já chegaram manifestações de interesse a partir da China. "Tivemos uma solicitação, não há muito tempo, mas, face à distância e às contingências, indicamos parceiros nossos para poderem endereçar o tema", frisa.
O sistema de gestão inteligente de resposta a inundações, energia e qualidade das águas balneares, uma parceria com a Águas do Algarve e várias universidades portuguesas, ou as duas centrais de dessalinização que implementou, com a Acciona, em Cabo Verde são outros dos projetos que estão a ser divulgados na Hannover Messe, bem como o projeto de armazenamento de energia e gestão de microrrede que a empresa está a desenvolver na Ilha Terceira para a EDA - Electricidade dos Açores, e a parceria que estabeleceu com a CaetanoBus para a eletrificação e descarbonização de 650 autocarros até 2024.
Esta é uma das 109 empresas portuguesas representadas na 75ª edição da Hannover Messe, a maior feira de indústria e tecnologia do mundo. Portugal é, este ano, o país-parceiro do certame.
*Em Hannover. A jornalista viajou a convite da Siemens