O Partido Comunista tem fama de ser monolítico, de, graças a um corpo de funcionários bem treinados ideologicamente, seguir apenas uma estratégia, de ter uma ação afinada como um relógio suíço. A verdade está longe de refletir esse mito.
Na verdade existem pontos de vista muito diferentes no interior do Partido Comunista como se viu em relação à geringonça, com toda uma fação a opor-se ao apoio ao governo do PS, e como se vê em relação a temas fraturantes da sociedade portuguesa. O racismo e o feminismo são alguns deles.
A maioria dos comunistas são antirracistas genuínos, conhecem a História de luta, inclusive armada, do seu Partido contra o regime colonial e de apoio aos povos africanos, sabem que o racismo é estrutural na sociedade portuguesa, como em qualquer sociedade capitalista contemporânea, lutam verdadeiramente contra este fenómeno.
Contudo, existe uma ala, com peso na direção do Partido Comunista, que não esconde o seu conservadorismo e o seu racismo primário, muitas vezes disfarçado, mas sempre com o rabo de fora. Esta ala tornou-se nos últimos anos cada vez mais vocal defendendo as suas ideias abertamente na imprensa e materiais de propaganda do PCP. Usamos a palavra ala na sua acessão de grupo, de conjunto de pessoas, não podendo aquilatar se estão ou não organizadas entre si para espalhar as suas ideias e políticas.
No Avante uma coluna destaca-se na defesa do Racismo. A coluna denomina-se A Talhe de Foice e é assinada por Anabela Fino.
Recentemente esta coluna acolhia um artigo contra o ajustamento de linguagem de algumas obras clássicas da literatura infantil e de aventura e até dos dicionários de língua portuguesa. Vejamos o que está em causa - primeiro a autora insurge-se contra a troca de palavra "homens" por "pessoas", por exemplo homens-nuvem por pessoas-nuvem, homens-pequenos por pessoas-pequenas e assim por diante. A mesma alteração que na Carta dos Direitos Humanos levou a que se substitui-se "Todos os Homens nascem livres e iguais" por "Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais". Qual a razão desta mudança? Incluir as mulheres e outros géneros na Humanidade que assim deixa de ser apenas o sexo masculino. Estar contra esta mudança diz muito sobre o conservadorismo machista da autora. Estar contra esta mudança significa ignorar o grito das mulheres e das pessoas de outros géneros pela inclusão, virando-lhes as costas e preferindo continuar a usar linguagem completamente machista.
Esquece esta autora os ensinamentos de Engels e da sua obra fundadora sobre a Família e a Propriedade Privada. Será que alguma vez a leu?
Mas a colunista não se fica nesta posição e avança também contra a alteração do dicionário Houaiss, o maior da língua portuguesa, no verbete relativo à palavra cigano. Na altura o Ministério Público brasileiro exigiu à editora que retirasse a menção que identificava a palavra como sinonimo de "trapaceiro" e "velhaco". Cito "O procurador, adepto da borracha, considerava isto ofensivo e preconceituoso e racista". A autora pelo contrário não considera tais insultos ofensivos, nem preconceituosos nem racistas. Para ela são factos. E diz mais, defende que uma tal alteração seria implementar a censura e promover a reescrita da História. E vai inacreditavelmente mais longe afirmando que esses insultos devem ficar no dicionário. Na verdade deixar estas mentiras, este preconceito odioso, no dicionário é que é o mais puro racismo, é que é alimentar o preconceito, o obscurantismo e o ódio a uma parte da nossa população.
O verbete acabou retirado em 2012 da versão online e foi depois reformulado, para grande desagrado da comunista.
Esta defesa do racismo vem disfarçada de toda uma panóplia de argumentos incompreensíveis e falsos que apenas convergem da defesa de ideias racistas sob a capa de que tudo deve ser imutável e a História não deve ser reescrita.
Essa ideia de que tudo deve ser imutável é obviamente distante das ideias de Marx, que pelo contrário pretendia tudo mudar, mesmo, e em primeiro lugar, a forma de olhar para o passado. Por isso formulou a teoria do materialismo histórico uma visão nova sobre a História, dando importância a factos esquecidos, trazendo para o centro os desvalidos quando até então a História os não referia. Reescreveu toda a História da Humanidade e ajudou o mundo a mudar para melhor. O que dirá esta colunista, que insultos lhe reservará, de tal revisor da História, que não se limitou a mudar uma ou duas palavras de um livro mas reescreveu toda a História desde a mais profunda e longínqua antiguidade até à atualidade.
Esta ala conservadora, sexista e racista do PCP está a danificar a relação entre as diversas comunidades e esse Partido contribuindo fortemente para o seu declínio eleitoral. Está também, pela sua argumentação primária, pela ignorância que orgulhosamente exibe, pela proximidade com as teses do Chega, a envergonhar os intelectuais comunistas que não ousam critica-la abertamente mas que em surdina se vão afastando de tais teses.
Interessante será perceber quem nesta luta interna irá prevalecer. As teses do próximo Congresso serão a prova final para mostrar quem sairá vencedor desta contenda ideológica. O futuro do PCP, nas próximas décadas, passa muito pela atitude face às minorias nacionais, face ao Racismo, à luta das mulheres e à xenofobia.