Um dos impactos bastante negativos da actual pandemia reside no facto de as pessoas necessitarem de estar confinadas nas suas casas, mas sem fazerem a menor ideia por quanto tempo.
Uma tal incerteza agrava as condições para o "stress" e para os problemas psicológicos, pessoais e familiares, ainda mais num contexto em que muita gente já perdeu os seus empregos e/ou rendimentos ou tem receio de os vir a perder no pós crise. Por outro lado, este enquadramento de incerteza tolhe muitas das necessárias decisões empresariais.
É neste contexto que o Governo deveria ser mais temerário e arriscar com uma data, não inventada ou conveniente mas que tivesse algum fundamento face aos dados disponíveis e ao que se vai passando noutros países. Ainda mais quando assistimos a intervenções, avulsas e sem fio condutor, de responsáveis do Ministério da Saúde que parecem ir atirando a saída da crise algures lá mais para final do ano, o que faz aumentar a confusão que por aí grassa.
Na realidade julgo mesmo que essa data já existe, e tem estado na mente de muita gente, incluindo no Governo, constituído mesmo um dos alicerces para a elaboração por diferentes entidades, incluindo a Academia e o Banco de Portugal, de diversos cenários para a economia portuguesa.
Essa data parece ser 1 de Junho. Uma data em que se espera (e sabe) que diversos países europeus já estejam nessa desejada fase da retoma económica e social.
Julgo que o Governo deveria apresentar, com adequada flexibilidade e solenidade, esse cenário, objectivo e viável, de início da saída da crise e desafiar todos os portugueses para continuarem a fazer aquilo que deve ser feito para assim tornar possível que todos nós, em conjunto, possamos tornar realista a prossecução dum tal objectivo e vencer o coronavírus.
Algo claro, motivador e “palpável”.
Se desse esforço conjunto viessem a resultar as condições para se poder antecipar numa ou duas semanas essa retoma gradual da normalidade, tanto melhor.
Se não o conseguíssemos, certamente que haverá então boas justificações para adiar por mais algum tempo o objectivo temporal que havia sido fixado com a melhor das intenções. Sem riscos políticos de monta!
Julgo que a assumpção, ao mais alto nível, do compromisso proposto viria a dar esperança e ânimo redobrado, bem realista, aos portugueses mais desorientados com a situação que lhes caiu em cima e apontar, desde já, para uma “luz ao fundo do túnel”, mesmo que a mesma não possa ainda ser descortinada, de forma clara, na presente data.
António Duarte Pinho, economista e ex-conselheiro técnico na REPER/Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia