Até ao 2015 brasileiro.
Mesmo sendo o ano em que o Brasil viveu uma das maiores catástrofes ecológicas da sua história, com o rompimento da barragem de Bento Rodrigues, em Minas Gerais, que matou 17 pessoas, engoliu um bairro inteiro e fez do Rio Doce um amargo mar de lama.
Mesmo tendo em conta que o vírus zika condenou milhares de recém nascidos a nascer com microcefalia, especialmente no nordeste do país, e é a última e mais assustadora face do aedes aegypti, o terrível mosquito da dengue e da chikungunya.
Mesmo que na economia a inflação, o desemprego e a recessão tenham voltado a assombrar e mesmo que em Brasília a política tenha tido momentos em que se confundiu com aquela mistura pastosa de água, terra e barro – lama, no fundo – e meia dúzia de protagonistas tenham agido como agentes infecciosos – vírus, portanto - houve um lado positivo no 2015 brasileiro.
Mais do que um aliás. Se formos otimistas, até houve mais lados positivos do que negativos, o copo esteve mais para meio cheio do que para meio vazio.
A começar pela justiça. Em 2015, 515 anos depois de Pedro Álvares Cabral ter chegado a Porto Seguro, a oligarquia brasileira teve finalmente medo. Medo do juiz Sergio Moro, que conduz com outros jovens procuradores a Operação Lava Jato com a mesma obstinação com que, antes deles, outros giudici ragazzini na Itália dos anos 90 desmembraram partidos políticos, empresas e não só na Operação Mãos Limpas. Em 2015 foram detidos senadores, banqueiros e construtores, todos estrelas nos seus domínios. Uma das frases que melhor identificavam o país, o infame “você sabe com quem está falando?” perdeu atualidade. Talvez para sempre.
E no âmbito social, o racismo ganhou o noticiário. No Brasil, crimes de ódio racial são absolutamente residuais, ao contrário do que sucede nos EUA, o seu primo supostamente superior em tudo. Mas o racismo social é uma chaga, vive-se uma espécie de apartheid tolerado, consentido, legalizado. Em 2015, a apresentadora do boletim metereológico do mítico Jornal Nacional da Globo, a negra Maria Júlia Coutinho, foi vítima de comentários racistas e não se calou. Taís Araújo, atriz protagonista de uma série, idem. E ao lado delas milhares de brasileiros fizeram do racismo tema de debate.
Não por acaso, Maria Júlia e Taís são mulheres. Jornais e revistas, como a Época, elegeram o movimento feminista no país, ainda a dar os primeiros passos, como o principal acontecimento político do ano. O parlamento mais conservador desde a democracia, onde fanáticos evangélicos determinam quem foi ou não violado e o que a mulher deve fazer a seguir ao estupro, entre outras questões que não lhes cabe, serviu pelo seu extremismo, para levantar uma onda de indignação que levou o país a ter na agenda questões já normais em países mais civilizados mas debaixo do tapete no Brasil.
Ou seja, apesar das catástrofes naturais, mesmo que evitáveis pelo homem, e dos péssimos exemplos de Brasília, o país evoluiu em 2015. E não foi pouco. Brindemos, pois, com o copo meio cheio a um 2016 transbordante de boas novas.