Nascido após três irmãos mais velhos e antes de nascerem os três mais novos, desde pequenino que António Cunha se esforçou por ser diferente. "Era do contra e atrevido. Não queria que ninguém mandasse em mim", recorda, assumindo manter ainda esse espírito de rebeldia que fez dele empresário.
"Continuo a investir naquilo que ainda ninguém fez, a fazer aquilo que ainda ninguém quis fazer", revela.
Em quase três décadas, ergueu o "Grupo 7 Cunhas", detentor das "Tintas Europa" em Portugal e de mais de uma vintena de empresas em Angola. Fatura cerca de 75 milhões de euros anuais, emprega cerca de 1200 pessoas e vai, este ano, duplicar o investimento feito no ano passado: de 10 para 20 milhões de dólares (mais de 15 milhões de euros), em Angola, em novas obras para o governo central.
O projeto começou pouco depois do "25 de abril", quando o jovem de 18 anos fundou uma fábrica de tintas no distrito de Viseu. "O meu capital inicial? Foram 50 contos (250 euros), com os quais comprei uma arma, e a palavra de honra. Só isso", explica. O pai, empreiteiro de estradas e homem influente lá na terra natal - Caíde de Rei, Lousada -, ia "ajeitando emprego para os filhos lá na Casa do Povo". Todos com destino traçado, a vida seria mais tranquila.
Mas António Cunha não poderia satisfazer-se com tal solução e foi o único que saiu daquele aconchego.
"Nunca ninguém na minha família tinha emigrado, por isso achei que tinha de ir ver o Mundo", recorda.
Em 1979, fez a primeira de várias viagens de prospeção a vários países (África do Sul, EUA, Angola) e, pela questão da língua, decidiu estabelecer-se em Angola. O primeiro negócio foi em 1985, altura em que passou a fornecer materiais de construção, principalmente, a empresas portuguesas (Mota Engil, Teixeira Duarte, Soares da Costa) a laborar em Angola.
"Sempre tive muita sorte. Nessa altura, fiz a viagem a Angola e não tinha dinheiro. Ia pagando as despesas com cheques, pois demoravam oito dias a chegar cá e a ser debitados, portanto ia jogando com esse tempo. Já tinha feito 800 contos (1600 euros) de dívidas e não sabia como ia paga-las quando, à última hora, fecho um negócio de 40 mil contos (200 mil euros). E o dinheiro chegou à conta antes de os cheques que passei começarem a ser cobrados", relata o empresário.
Durante quase três décadas, a empresa de materiais de construção civil alargou atividades, deu paternidade a outras empresas, em 14 ramos de atividade diferentes - desde a recolha de lixo às energias renováveis - e continua a expandir-se.
"Este ano, vamos concentrar-nos na nova empresa 7Frios, que vai abastecer os restaurantes, as cantinas e os estaleiros de obras que temos em Angola. Também já temos negócios em Moçambique, onde construímos um resort com 50 habitações T1, que, em princípio, já estará todo ocupado", anunciou o empresário, que também vê uma "grande oportunidade na agricultura em Angola" e está "disponível para parcerias com quem quiser trabalhar" na área.
Criar emprego, desvenda, é "uma das maiores alegrias" do empresário que, à semelhança do pai, agora tem vindo a "captar" elementos da família - já cerca de 20 - para trabalhar com ele.
Preocupa-o "a terceira geração, que já devia estar a aprender o negócio", mas os filhos, Sérgio e Samuel, de 30 e 28 anos, respetivamente, ainda não casaram e não têm filhos. "Já sei que os 25 anos que digo que Angola ainda tem de crescimento são os mesmos que ainda vou trabalhar", admite.
Para companhar o crescimento, o Grupo 7 Cunhas está a recrutar "entre 10 a 15 pessoas, para entrada imediata, em todas as áreas". Além das competências profissionais, o empresário alerta que é preciso "integridade e vontade de trabalhar", porque, de resto, atesta que "muitos têm ido para Angola a pensar que é um El Dorado e voltam de mãos a abanar, porque é preciso transpirar". E ter alguma sorte, conclui.