Quando, em pleno verão de 1942, Fernando van Zeller Guedes se juntou a 15 amigos e fundou a Sociedade Comercial dos Vinhos de Mesa de Portugal, estava longe de pensar que, 70 anos volvidos, a Sogrape seria um dos maiores grupo empresariais portugueses, com 19 subsidiárias e produção vinícola em quatro países - Espanha, Argentina, Chile e Nova Zelândia -, além de Portugal.
E provavelmente não lhe passaria pela cabeça que o vinho "jovial, leve e fresco, ligeiramente doce e petillant" que acabara de criar, seria reconhecido como um dos símbolos de Portugal no exterior, sendo o "vinho de mesa mais vendido em todo o mundo".
Hoje, a Sogrape é liderada pelos seus descendentes - a segunda e a terceira gerações -, que apontam o 'golpe de génio' do fundador na criação do Mateus Rosé como um dos momentos fulcrais na história da empresa.
Um marco de sucesso, assente num produto inovador, vocacionado para a conquista das gerações mais novas e do público feminino, mas também num marketing distinto, já que a garrafa bojuda, inspirada no cantil dos soldados da I Guerra Mundial, ajudou à diferenciação. Amália Rodrigues, Elton John e Jimmi Hendrix são, apenas, alguns dos nomes de personalidades famosas que deram rosto a esta marca global.
Sete décadas passadas, o portefólio da Sogrape é hoje constituído por muitas e variadas marcas de elevada notoriedade, com destaque para a Sandeman - a única marca verdadeiramente global de vinho do Porto -, a Ferreira, líder de vendas de 'Porto' no mercado nacional - e o Barca Velha, símbolo maior da qualidade dos vinhos do Douro.
Dos quase 180 milhões de euros faturados em 2011, o Mateus assegura 30% e conseguindo, ainda, crescer. Uma prova da vitalidade da marcas, mas também do esforço de renovação que a Sogrape lhe impôs, com o lançamento, em 2002, de uma nova imagem e, em 2009, de uma nova gama, o Mateus Sparkling.
Já os vinhos do 'Novo Mundo', onde a Sogrape se instalou a partir de 1997, com a aquisição da Finca Flichman na Argentina, representam quase 20% do volume de negócios. Aliás, 80% das vendas da Sogrape são obtidas fora de Portugal. Distinguida, em 2010, com o que muitos consideram ser o Óscar da indústria, o troféu 'Produtor Europeu do Ano' atribuído pela revista americana Wine Enthusiast, a Sogrape vive, um momento de estabilização.
"Depois da tão ambicionada entrada no mercado espanhol - com a aquisição, já este ano, da Bodegas LAN -, algo que procurávamos há bastantes anos, este é um momento de consolidação", afirmou ao Dinheiro Vivo o CEO do grupo, Salvador Guedes, explicando que a estratégia da Sogrape é, por natureza, "avançar devagar e bem, dando os passos certos no momento certo".
Salvador Guedes assegura que o grupo não teve "qualquer dificuldade em obter crédito para financiar a operação em Espanha, bem pelo contrário", mas invoca a instabilidade mundial e a necessidade inerente de "ser, ainda, mais cauteloso", razão porque não está nos seus horizontes fazer novas aquisições.
Assim, o grande desafio centra-se em "pôr a máquina existente a funcionar" e em "melhorar a relação entre as empresas de produção e de distribuição". Mas, também aqui, o objetivo é assegurar crescimentos orgânicos, investindo no reforço dos recursos humanos. É o que irá acontecer, muito provavelmente, no Brasil, onde a Sogrape tem um gestor residente.
"Temos uma posição que fica aquém do nosso potencial (representa 1,5% das vendas). Precisamos de um trabalho mais intenso do mercado, até porque, como principal empresas produtora em Portugal, temos obrigação de ter uma melhor posição no Brasil", defende. O Extremo Oriente é outra das grandes apostas deste player mundial.
"Temos vindo a crescer 16 a 20% ao ano. Começamos com uma pessoa há cinco anos, hoje temos uma plataforma de distribuição com sete gestores residentes", explica. Um destes está em Xangai, uma estrutura que "terá de ser reforçada num futuro próximo", sublinha este responsável, dado o "grande potencial de crescimento" deste mercado.
E o mercado nacional, onde está presente nas principais regiões, do Douro ao Alentejo, passando pelo Dão e pelos 'Verdes'? "Este ano tem-nos corrido bem, fechamos o semestre a crescer 3 a 4%", diz Salvador Guedes. As previsões para o fim do ano são da mesma ordem de grandeza. Isto, apesar, dos efeitos da austeridade. "Este é um período difícil, mas não creio que haja alternativa. Vamos ter que passar por este vale de desespero para, depois, retomarmos o crescimento", defende.
As empresas têm de se reinventarem, diz. Racionalidade, inovação e competitividade são questões fulcrais. "Provavelmente, saíremos todos mais fortes desta situação", crê.
Menos positivo foi, também em 2011, o contributo do mercado argentino. "Reduzimos um pouco a atividade para ganhar forças para acelerar o crescimento quando a situação económica o permitir", diz. Sobre a nacionalização da YPF, subsidiária da Repsol, Salvador é perentório: "Não é um sinal positivo, mas não nos passa pela cabeça que nos possa acontecer o mesmo. Até pela dimensão da nossa operação".
Setenta anos estão passados. E os próximos 70? "Há uma frase famosa de um Rothschild - proprietários do ícone mundial dos vinhos, o Château Lafite -, que diz que os primeiros 250 anos numa empresas de vinhos são os mais difíceis. Ainda nos faltam 180", diz, sorrindo.