A arte do desenrasque

Às vezes a vida coloca-nos em situações em que temos de nos virar, ou cruzamos os braços. As situações adversas fazem-nos mais criativos.
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Há uns anos, fui jantar fora com a minha mulher, a minha mãe, o meu padrasto e a minha tia. Fomos ao D"Oliva em Matosinhos, mas como não fizemos reserva, quando lá chegamos estava cheio. Era tarde e já que estávamos ali, lembrei-me de que umas portas abaixo, havia um restaurante onde tinha estado anteriormente e tinha gostado. Decidimos ir lá. Não me lembro do nome, mas lembro-me que ficava num armazém, com uma decoração muito gira, e a comida era boa. Chegamos e havia lugar para todos. Havia também uma banda a tocar, e um ecrã gigante a passar um jogo da primeira liga de futebol.

Demorou bastante até vir alguém à nossa mesa. Os empregados andavam numa correria, de um lado para o outro, mas não estavam a dar vazão às mesas. De repente, berros vindos da cozinha. Não deu para entender o que se discutia. Segundos depois, o cozinheiro atravessa a sala, de jaleca posta, e sai porta fora. Mais dois cozinheiros e outros tantos empregados o acompanham. Não me lembro se já tínhamos pedido, mas lembro-me que a banda parou de tocar. Os músicos levantaram-se e foram para a cozinha. O guitarrista e o teclista, dividiram-se a servir às mesas, enquanto o baterista foi para trás dos tachos com o vocalista. A partir daí foi um filme de Fellini. O pedido chegou passado hora e meia, todo trocado. As entradas não vieram, em vez de Douro veio Ribatejo, e a comida era intragável. A minha mãe pediu spaghetti carbonara e veio bife com molho pimenta. Quando questionado sobre o engano, o músico-empregado, riu-se e disse "é verdade que não é carbonara, mas este bife é uma delícia. Se fosse a si comia que está ótimo".

O que nos fez ficar no restaurante, foi o desespero e a simpatia dos músicos. A noção de solidariedade e criatividade da banda garantiu que a barraca não fosse ainda maior e que os clientes ficassem abandonados lá dentro. A comida estava boa? Não. Passamos uma noite fantástica? Sim. Foi dos jantares mais divertidos que me vem à memória.

Às vezes a vida coloca-nos em situações em que temos de nos virar, ou cruzamos os braços. As situações adversas fazem-nos mais criativos, é da natureza humana. São tantos os exemplos de histórias de negócios de sucesso que começaram porque alguém foi posto à prova e teve de se desenrascar. Não sei o que é feito dos músicos, mas com aquela atitude podiam ter ido longe em qualquer indústria, menos na restauração, está claro!

João Coutinho, North America Executive Creative Director na VMLY&R Nova Iorque

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