A inflação disparou, não é conjuntural nem vai passar depressa, assume já o BCE, contendo ainda uma subida das taxas mas admitindo-a num horizonte de curto prazo, enquanto põe fim aos programas de compra de dívida. Christine Lagarde já entregou os pontos e admite que vem aí nova recessão - se pode dizer-se que chegámos a sair da última crise - e alerta para o desemprego a crescer. Os efeitos do péssimo cenário europeu são sempre piores para os mais fracos, como Portugal, cuja imensa dívida e fracos crescimentos mantêm reféns de qualquer soluço.
Num momento em que veem o seu poder de compra cair mais do que os dos outros europeus (a maior redução desde o tempo da troika e das maiores entre os 33 países da OCDE), à boleia dos preços elevados e dos aumentos salariais que a falta de produtividade manteve pífios nos últimos anos, as famílias portuguesas veem os juros a seis meses passar para terreno positivo ao fim de sete anos, ameaçando, a um prazo mais curto do que longo, a sua capacidade de pagar a prestação da casa.
As empresas, obrigadas a investir na transformação energética e digital, sentem-se cada vez mais estranguladas por crises acumuladas - falta de mão-de-obra e de matérias-primas, interrupção das cadeias de abastecimento e encarecimento dos preços de tudo à boleia dos custos da energia - e apoios pouco mais do que cosméticos que as deixam em piores condições para competir com as concorrentes europeias, num momento em que o consumo interno já se retrai.
É neste cenário que o governo de Portugal, com o primeiro-ministro à cabeça do cortejo, vem falar na necessidade de avançar para a semana de quatro dias úteis com pleno pagamento - apenas para ser testado entre os que não são pagos pelo Estado, claro. E exigir ao setor privado que aumente salários, ainda que o Estado não pretenda fazê-lo porque isso "criaria uma espiral inflacionista" e poria em risco as contas que se querem saudáveis - os funcionários públicos, a caminhar a passos largos para o redondo número de um milhão, que se aguentem em défice. Os bandidos dos patrões que paguem a fatura e de caminho aumentem a receita do Estado, à boleia daquela que é uma das maiores cargas fiscais sobre o trabalho na zona euro. E sempre ficam esses trabalhadores com mais dinheiro para consumir e contribuir para os cofres públicos.
Segue o baile do Portugal modernaço, campeão dos modelos alternativos que logo se vê como hão de ser financiados porque, como dizia o outro, a dívida não é para pagar, é para gerir.
E eu que não sabia que nos Santos Populares também havia circo.