

Chega ao fim do mês e parece que o dinheiro desapareceu? Para perceber porquê, o primeiro passo é olhar para as contas com atenção: quanto entra, quanto sai e que despesas ainda estão para chegar. A prestação da casa, um crédito, uma empresa familiar ou um investimento podem parecer decisões separadas, mas acabam por mexer no mesmo orçamento.
É essa ligação que está no centro dos cinco livros da coleção "Como Gerir as Finanças – Literacia Financeira", da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Rita Santos escreve sobre orçamento familiar; Ana Isabel Sá, sobre habitação; Filipe Correia, sobre crédito; Cláudia Custódio, sobre a gestão das finanças da empresa e da família; e Gonçalo Vieira da Luz, sobre investimento. A ideia comum é simples: antes de decidir, convém saber que dinheiro há disponível e que compromissos já foram assumidos.
Os dados do Banco de Portugal ajudam a perceber por que razão este tema importa, embora não estejam na origem dos livros. Numa análise publicada em março de 2026, baseada no inquérito nacional realizado em 2023, o banco central concluiu que apenas 13% dos inquiridos responderam corretamente às sete perguntas usadas para avaliar conhecimentos financeiros essenciais.
Rita Santos, autora de "Gestão do Orçamento Familiar", sabe que olhar para as contas pode ser desconfortável. Licenciada em Economia e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, integrou o projeto "Finanças para Todos", dedicado à formação financeira de adultos, e trabalha atualmente na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, em Bruxelas.
"A maior parte das pessoas tem medo de saber o estado das suas finanças", observa. Mas, sem esse primeiro retrato, é difícil perceber onde se pode ajustar o orçamento. A sugestão é simples: durante alguns meses, apontar as despesas e acompanhar os gastos. "Eu recomendo sempre às pessoas que façam um acompanhamento, um registo dos seus gastos durante três, quatro ou cinco meses", diz. Pode ser num caderno, numa folha de cálculo ou numa aplicação de telemóvel. O importante é perceber quanto se gasta nas contas fixas e quanto vai para despesas que mudam de mês para mês. Também convém fazer uma média das despesas que não aparecem sempre, como certas contas anuais ou reparações. Quando se conhece o padrão dos gastos, fica mais fácil perceber se uma nova despesa cabe mesmo no orçamento.
Uma das despesas que mais pesa é a casa. Ana Isabel Sá, autora de "O Papel da Casa nas Finanças Pessoais", é investigadora no Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal. Doutorada em Economia, mestre em Finanças e com dez anos de experiência na banca comercial, também trabalhou em investigação, ensino e consultoria.
Comprar ou arrendar? Para Ana Isabel Sá, não há uma resposta que sirva para toda a gente. "A opção entre comprar ou arrendar casa vai depender sempre da situação particular do agregado", afirma. É preciso olhar para os rendimentos, para os planos da família e para as condições concretas de cada negócio. "Pode aparecer uma casa que vale a pena comprar e outra que não."
E há mais contas a fazer do que a renda ou a prestação ao banco. Na compra, entram os impostos, a manutenção e, num apartamento, o condomínio. Uma obra no prédio pode trazer uma fatura pesada. Ana Isabel Sá aponta que, idealmente, os encargos com a casa não deveriam ultrapassar 30% a 40% do orçamento familiar, embora reconheça que hoje isso é difícil para muitos agregados.
A casa pode ser um património e dar segurança mais tarde, por exemplo na reforma. Mas, para isso, a compra tem de ser compatível com as possibilidades da família. "Se a decisão for consciente e planeada e nós só comprarmos aquilo que podemos comprar, poderá não ter essa carga negativa", explica.
Quando a compra ou outra despesa leva uma família a pedir dinheiro emprestado, entra em cena o crédito. Filipe Correia, autor de "Nós e o Crédito", é professor de Finanças na Universidade da Geórgia e estuda a forma como as famílias usam o crédito para gerir despesas e riscos. "O crédito pode ser uma ferramenta útil quando tanto nós como quem nos está a dar o crédito acreditamos que ele vai ser pago", diz. Pode ajudar a concretizar uma compra que não se consegue pagar de uma só vez. Mas as coisas podem mudar depois da assinatura. "A vida tem riscos e, quando o crédito entra na nossa vida, ele passa a tornar-se um risco."
E esse risco pode chegar a toda a família. "Normalmente, créditos impactam a vida não só de uma pessoa, mas a vida de uma família", lembra Filipe Correia. Por isso, antes de aceitar um empréstimo, vale a pena perceber se a compra é mesmo necessária, comparar preços e pensar no que mais se poderia fazer com o dinheiro disponível.
Se o crédito continuar a fazer sentido, é altura de comparar propostas. O autor aconselha a olhar para o prazo, para o valor das prestações e para os juros, que determinam o custo do empréstimo. "Não se assina um contrato sem se ler", avisa. E acrescenta que é melhor informar-se antes de estar numa situação de urgência: "Informarmo-nos antes de precisarmos de crédito" dá mais tempo para comparar e decidir. Quem já tem dificuldade em pagar deve procurar informação junto das entidades envolvidas, em vez de deixar o problema arrastar-se.
As contas podem complicar-se ainda mais quando a família tem um negócio. Cláudia Custódio, autora de "O Empreendedor e a Empresa", é professora catedrática de Finanças no Imperial College, em Londres. Doutorada pela London School of Economics, passou também pela Arizona State University e pela Nova SBE e dedica-se ao estudo das finanças das empresas. Uma das suas principais recomendações é separar o dinheiro da empresa do dinheiro da família. É mais fácil dizer do que fazer, sobretudo quando o negócio é pequeno e ocupa grande parte da vida do proprietário. "Há um lado emocional, pessoal, que pode tornar mais difícil essa separação", reconhece Cláudia Custódio.
Quando o negócio atravessa dificuldades, o empresário pode sentir que tem de pôr dinheiro próprio para o salvar. Mas é importante parar e fazer as contas. "É muito importante tentarmos ser racionais e irmos para além dessa ligação emocional que possamos ter ao negócio", diz. Se a empresa não for viável e depender sempre do dinheiro da família, tentar mantê-la pode acabar por pôr em risco o património do agregado.
Também não basta fazer contas aos grandes investimentos, como a compra de uma máquina. É preciso ter dinheiro disponível para pagar as despesas do dia a dia da empresa. "Há muitas empresas que crescem muito depressa", observa a autora, mas crescer também pode significar precisar de mais dinheiro para manter a atividade. É o chamado fundo de maneio. Acompanhar o que entra e sai e fazer projeções ajuda a perceber se a empresa conseguirá continuar a funcionar.
Depois de pagar as despesas e de perceber que margem existe, algumas famílias podem pensar em investir. Gonçalo Vieira da Luz, autor de "Como Investir o Seu Dinheiro", formou-se em Economia e Finanças na Nova SBE, onde foi professor convidado. Começou a carreira em Lisboa, passou por multinacionais, criou o próprio negócio e trabalha atualmente em banca de investimento, em Londres. Também cocoordenou a primeira edição do programa "Finanças para Todos".
Para quem está a começar, o primeiro passo é informar-se. A inteligência artificial e a facilidade de acesso a conteúdos podem ajudar, mas também podem baralhar quem não sabe avaliar o que está a ler. "É importante a pessoa ter um conhecimento básico que lhe permita saber que perguntas fazer e interpretar informação perigosa", afirma.
O risco que cada pessoa pode assumir depende de vários fatores, diz Gonçalo Vieira da Luz: a idade, o tempo que falta até à reforma, a estabilidade dos rendimentos e a capacidade de poupar. Na sua opinião, muitos portugueses são demasiado conservadores quando investem a longo prazo. Outros, depois de escolherem produtos com risco, acabam por comprar e vender vezes demais.
O autor defende a diversificação e uma visão de longo prazo. "O truque é comprar, ficar sentado em cima do investimento, diversificar", resume. Também prefere a exposição a índices globais a concentrar todo o investimento na economia portuguesa, sobretudo no caso de quem já depende dessa economia através do trabalho. Investir envolve risco e não garante ganhos; é importante pensar se pode vir a precisar do dinheiro antes do prazo previsto.
E é aqui que o investimento volta ao orçamento. Rita Santos lembra que poupar sem saber para quê pode ser difícil de manter. "Nós não poupamos só por poupar, para acumular dinheiro", afirma. A poupança pode servir para pagar os estudos, enfrentar uma doença ou um acidente ou preparar a reforma. Ter um objetivo ajuda a decidir prioridades e a perceber que despesas podem ser ajustadas.
Também ajuda falar de dinheiro em família. "Em Portugal ainda é muito tabu falar sobre dinheiro, mesmo entre a própria família", observa Rita Santos. Conversar sobre os encargos e os planos permite que todos saibam o que é prioritário e ajuda a evitar decisões tomadas sem ter em conta o resto do agregado.
Apontar despesas, contar com os custos reais da casa, comparar créditos, separar as contas da empresa e da família e perceber o risco antes de investir: são passos diferentes, mas todos começam por conhecer o orçamento.Não é possível prever tudo o que vai acontecer. Mas, como mostram os cinco autores, é possível preparar melhor as contas e pensar nas consequências antes de tomar uma decisão.