

Poupar desde criança é essencial para manter uma vida estável e mitigar os sobressaltos das contas e dos imprevistos. O Dia Mundial da Poupança lembra-nos essa necessidade e também a velha estória da formiga que vai armazenando durante os períodos fartos para se prevenir nos períodos difíceis. É uma metáfora que pais e avós nos lembram desde a fábula grega de Esopo do século VI A.C., e que tem total cabimento nos dias que correm.
Não se pretende dar lições de vida, nem complicar contas e procedimentos, mas apenas e só, lembrar que a poupança está na ordem do dia quando se fala de jovens que não terão o nível de reformas que atualmente existem, dentro de 30 ou 40 anos. Também se fala de pessoas ativas e que estão no ponto mais
elevado das suas careiras contributivas para manterem uma disciplina quanto a investimentos para o período da reforma. E, para os que estão a sair da vida ativa e a preparar uma reforma, precisam de ter em consideração que os rendimentos e as poupanças que eventualmente tenham feito, podem não ser suficientes. Poupar é um desígnio nacional e envolve todos.
O primeiro tema é perceber o que devemos poupar. Nestes desafios sobre Finanças Pessoais já abordámos a necessidade de começar, pode ser por 20, 30 ou 50 euros, mas o relevante é a disciplina de poupar e criar um fundo numa conta à parte, de preferência sem custos de manutenção.
Esse fundo ou “almofada” irá servir para imprevistos, desde uma avaria de uma máquina, a uma despesa de manutenção não prevista, ou até à necessidade de fazer uma obra urgente em casa resultante de uma rotura de água. As justificações para ter um fundo de reserva são inúmeras e essas necessidades acontecem, sobretudo, quando nada se tem poupado.
Depois temos a necessidade de poupança mais estruturada, e esta destina-se a custear a universidade dos filhos, numa altura em que haverá mais necessidades de ter um quarto em outra cidade, ou fazer a aquisição de materiais e os subsídios estatais não são suficientes. Esta é das maiores preocupações a nível do futuro da família.
Temos ainda a poupança necessária para uma boa reforma, pois a pensão esperada, sobretudo para jovens, será da ordem dos 30% relativamente ao último salário, segundo estudos, e isso significa que mesmo sem dívidas, o nível de vida irá cair se não houver um respaldo financeiro.
E quando se pergunta o que devo poupar para os filhos, possivelmente se começar quando nascem os 50 euros mensais serão suficientes, e na poupança se colocar 100 euros numa conta poupança será suficiente para ter umas dezenas de milhar de euros ao fim de 40 anos de vida ativa, e com uma poupança constante. Claro que os valores que falamos hoje serão diferentes dentro de 10 ou de 20 anos, em que os mesmos 50 ou 100 euros estarão depreciados. A solução é ajustar a poupança ao valor da moeda no momento.
Precisamos de saber o que nos defende da inflação
Algo que nos preocupa se sobremaneira é perceber até que ponto conseguimos que a poupança de hoje tenha o mesmo valor, de facto, dentro de 10, 20 ou 40 anos. A erosão pela inflação é algo real, sobretudo nos períodos de turbulência como o que vivemos atualmente, e em que os preços da energia, da habitação ou da alimentação revelam subidas assustadoras perante o difícil equilíbrio do poder de compra.
A inflação, em parte alimentada pela especulação, faz perder valor ao dinheiro e uma poupança “debaixo do colchão” é um risco de desvalorização acentuado. É fácil de calcular o que se perde em termos de valor de dinheiro se pensarmos que em 2026 poderemos ter uma inflação média de 3,3%, e se a situação continuar o que significa a perda nos próximos 10 anos. E se pensarmos no muito longo prazo, tipo 40 anos, a situação obriga-nos a desenhar alternativas de proteção e, de preferência com risco reduzido ou, pelo menos, controlado.
A primeira ideia é aplicar dinheiro em produtos de capital garantido, mas é raro o produto que consegue acompanhar a inflação e os impostos que existem sobre o rendimento de capital. O primeiro passo é olhar para rentabilidade líquida, ou seja, o que fica depois de aplicado o imposto, e todas as entidades financeiras fornecem essa informação.
E depois é começar a comparar a rendimento líquido anual com a taxa de inflação esperada para o mesmo ano e ver quanto é que se perde da poupança em termos reais. Infelizmente os produtos mais procurados pelos portugueses que querem fazer poupanças são os Certificados do Estado e os depósitos a prazo convencionais, e esses têm rendimentos líquidos abaixo da inflação esperada para este ano, e mesmo relativamente à inflação esperada para o próximo ano e que o Governo estima em 2,3% (segundo o Orçamento de Estado para 2027).
E mesmo que a opção seja este tipo de produtos com risco muito reduzido, é preciso ainda perceber na ficha normalizada que a entidade financeira disponibiliza, quais as condições para se ter acesso ao dinheiro, nomeadamente saber se a mobilização é imediata ou precisa de dias, e se há perda de juros.
A taxa de poupança das famílias continua a ser reduzida, embora apenas falamos de poupança monetária, já que as famílias portuguesas fazem o investimento da vida no imobiliário ao comprarem a casa própria. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que no 2º trimestre deste ano a taxa de poupança das famílias foi de 12,1%, contra 14,2% da média da zona euro.
Boas medidas para incentivar a poupança seria a redução, ou mesmo o fim, de tributação sobre poupanças até determinado valor, e aumentar a oferta de produtos de aforro de muito longo prazo, algo mais sofisticado do que meros PPR com benefícios fiscais, e com alguns deles a revelaram remunerações de quase zero. O setor segurador tem igualmente um papel importante, com o ressurgimento de produtos de investimento de longo prazo ligados a seguros de vida. A subida das taxas de juro potencia este tipo de produtos.
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