A chapada que ofuscou uma noite histórica

Publicado a

Na sala de entrevistas por onde passam os vencedores dos Óscares na grande noite de Hollywood, a informação chegou bem tarde. "Will Smith não vai passar por aqui", disseram aos jornalistas. "Na verdade, ele já se foi embora." Jessica Chastain tinha respondido às nossas perguntas minutos antes, depois de ganhar o Óscar de Melhor Actriz, e havia expectativa para perceber se o novo portador do Óscar de Melhor Actor faria a gentileza de se passear com a estatueta nos bastidores.

Mas Will Smith estava em modo de contenção, depois de ter enfiado uma chapada que se ouviu em todo o mundo na cara de Chris Rock. Imaginem isto: um artista trabalha a vida toda a aperfeiçoar a sua arte, é nomeado duas vezes para os Óscares mas não ganha, investe-se de corpo e alma num filme sobre superação e sonho americano, e quando finalmente chega a hora da consagração, o momento por que esperou todos estes anos, perde as estribeiras e agride um comediante por causa de uma piada sem graça.

Chris Rock e a sua comédia parola foram erros de casting da organização dos Óscares, e a piada que fez com a calvície de Jada Pinkett Smith não foi inteligente nem engraçada - foi um recurso rasteiro para fazer rir à custa do aspecto não convencional de uma mulher. Bocejo.

No entanto, piadas destas são o pão com manteiga da indústria e o que Will Smith devia ter feito era o sorriso amarelo ou a cara de póquer que as mulheres há muito aprenderam a fazer como reacção a estas parolices diárias. Em vez disso, sentiu que era uma ofensa pessoal e cometeu uma agressão em plena cerimónia.

Além do indesculpável uso de violência, a chapada a Chris Rock ofuscou uma cerimónia histórica, cheia de enguiços quebrados. Foi histórica para Jane Campion, a terceira mulher em 94 anos a levar o Óscar de Melhor Realização. Foi histórica para Ariana DeBose, a primeira afro-latina lésbica a vencer o Óscar de Melhor Actriz Secundária.

Foi histórica para Troy Kotsur, o primeiro homem surdo que levou o Óscar de Melhor Actor Secundário. Foi histórica para a indústria, com o primeiro filme de uma plataforma de streaming, Apple TV+, a ser consagrado como Melhor Filme. Foi histórica para Siân Heder, que ganhou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado e o de Melhor Filme para "CODA", uma história com protagonistas surdos. E foi histórica para Yvett Merino, a primeira mulher latina a vencer o Óscar de Melhor Longa-Metragem de Animação com "Encanto".

Uma noite incrível para as mulheres e para a diversidade de Hollywood, com filmes de qualidade e o regresso a uma cerimónia presencial depois das restrições da pandemia. E do que se vão todos lembrar?

De um momento de descontrolo emocional que se escapou em raiva e mais tarde em lágrimas. As mulheres que estavam no Dolby Theatre, assistindo incrédulas ao que parecia inicialmente ser uma piada combinada, sabem bem que têm de manter a compostura em situações de desconforto, medo, perigo, humilhação - porque ouviram muitas vezes de executivos que são "demasiado emocionais" e "imprevisíveis."

É uma pena que nesta noite histórica, em que até as audiências recuperaram depois dos mínimos do último ano (subiram 56%), esta agressão se tenha tornado na história dominante. Não há como não ser, dada a seriedade do que aconteceu.

E é também um reflexo dos tempos estranhos que vivemos. Há guerra do outro lado do mundo e analistas preocupados com a possibilidade de serem usadas armas nucleares no conflito. Aqui, na cidade dos anjos, um artista multi-milionário defende a honra da mulher esbofeteando um comediante.

Classificação da crítica: uma estrela *

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt