Um simples prato de feijão pode custar o equivalente a 272,5 euros para a população mais pobre do mundo. Os dados são de um estudo da Mastercard e do Programa Mundial de Alimentos (PMA), a maior agência humanitária do mundo, que pretende mostrar as diferenças de poder de compra no mundo. O termo de comparação é Nova Iorque.
O estudo concluiu que, para a população dos países em desenvolvimento, uma refeição básica pode custar metade do ordenado de um dia de trabalho, mas chega a quase dois dias de salário em países em situação de colapso económico ou de conflito civil, como é o caso do Sudão do Sul, da Nigéria ou da Síria. Em 2016, havia 795 milhões de pessoas em todo o mundo a passar fome. Um número que deverá continuar a subir este ano, admite o Programa Mundial de Alimentos e a Mastercard no estudo intitulado 'Counting the Beans: The True Cost of Food Around the World'.
No estado de Nova Iorque, uma refeição à base de feijão custa cerca de um euro a confecionar, o que representa 0,6% do ordenado médio diário. Em contrapartida, no Sudão do Sul, o país mais pobre do mundo, a população precisaria de 155% do rendimento médio diário local para comer o mesmo prato de feijão estufado, ou seja, o equivalente a 272,5 euros para um americano. Na Nigéria, a proporção é de 121% dos rendimentos médio diário e equivale a dizer que uma refeição básica custa 170 euros, valor que na Síria é de 161 euros, na medida em que a população necessita de afetar 115% do seu ordenado médio diário para comer.
No Malawi, um prato de feijão custa o equivalente a 80 euros, no Congo é de 69,5 euros e em Moçambique chega aos 52,5 euros. Na ponta oposta estão a Jordânia, a Indonésia e o Irão, onde a mesma refeição custa entre quatro a seis euros, comparativamente ao Estados Unidos.
"Sem comida não é possível viver, aprender ou crescer", lembra Ann Cairns, presidente internacional da Mastercard, empresa que tem apostado em combater o ciclo de pobreza no mundo e que se comprometeu, no âmbito da parceria com o Programa Mundial de Alimentos, a entregar 100 milhões de refeições. Em julho, a Mastercard anunciou que já havia angariado mais de 17 milhões de refeições. "Estamos a utilizar a tecnologia e os recursos disponíveis para melhorar vidas e acabar com o ciclo da pobreza", diz Ann Cairns.
A parceria entre as duas entidades visa disponibilizar programas inovadores, como refeições escolares gratuitas e nutritivas, para ajudar a aliviar alguns dos problemas mais complexos responsáveis pela fome e travar o ciclo contínuo de pobreza. "Na maioria das vezes os pais enfrentam escolhas muito difíceis. Têm de optar entre pôr as crianças a trabalhar, para alimentar a família, ou enviá-las para a escola e passarem fome. Ao providenciarmos refeições escolares, conseguimos que as crianças permaneçam na escola, aprendam e se tornem trabalhadores mais produtivos. O resultado é uma maior prosperidade para famílias, comunidades e naturalmente economias locais", destaca a responsável da Mastercard em comunicado.
Já o diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, considera que os dados do estudo são "um lembrete claro de como os conflitos podem criar desigualdades cruéis em termos de acesso à comida". David Beasley acrescenta: "O compromisso desta parceria com a Mastercard permitiu-nos descortinar o que está por trás destas questões e possibilitou-nos apresentar soluções pioneiras que podem compensar algumas das piores repercussões dos conflitos, desastres e problemas da cadeia de fornecimento de alimentos que levam à insegurança alimentar. Em Counting the Beans fica patente a urgência de mobilizarmos o mundo para pôr fim a estes conflitos e de nos aproximarmos do nosso objetivo de acabar com a fome até 2030".
Recorde-se que, em 2012, a Mastercard ajudou o PAM a criar um sistema pioneiro para providenciar cartões pré-pagos a refugiados sírios no Líbano e na Jordânia, capacitando-os a adquirir alimentos para as famílias. Desde então, cerca de 2,2 milhões de refugiados sírio usaram estes cartões, uma forma de ajudar, também, à dinâmica das economias locais.