A dívida não se paga, gere-se. Gaspar tinha razão

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Vítor Gaspar gostava de dizer que, na dívida, uma reestruturação está sempre fora de questão. O ministro rimava com tanta força, gritava tão convicto da nobreza da canção que, dois anos depois, quando deu uns toques nos versos, teve cuidado para não passar por mentiroso.

Mas, mesmo com pinças, Gaspar mexeu na dívida. Acrescentou-lhe anos e juros adiados. Puxou dívida europeia e chutou-a para depois de 2023, bem no colo da próxima geração. E fê-lo com Bruxelas a aplaudir, contente com os juros ganhos e com a garantia, escrita a sangue, que Portugal nunca seria a Grécia, que nunca restruturaria a dívida acumulada com um corte bruto nos montantes. E nessa canção de Gaspar, suficientemente afirmativa para passar em Bruxelas, mas fraca o bastante para não resolver o problema, Portugal ganhou tempo.

De facto, a dívida já entrou em reestruturação. Sem eurobonds e uma mutualização maior da dívida europeia, essa é a única solução para uma Europa que quer continuar a financiar-se lá fora, afastando todas proto-Grécias pelo caminho. No último ano, Gaspar fez quase tudo. Adiou dívida, pôs fundos de pensões a comprar títulos do Estado, preparou até o caminho para que os títulos do Estado sejam vendidos aos bocados no retalho, com um juro simpático.

Apesar de tudo isto, os mercados já fazem a próxima pergunta: se a montanha é tão grande, não está na altura dos bancos ajudarem? E adiarem juros e empréstimos? De fazerem eles o que a Europa (não o FMI, que não entra nessas coboiadas) fez por Portugal? A PIMCO, maior gestora mundial de fundos, acredita que sim. E acredita que um país que segue uma lógica de não-agressão, não terá outra opção e alargar as dores se quiser continuar a pagar salários. Depois da Europa, virão os institucionais e os nacionais. Adiamentos e cortes nos juros, retoques cosméticos num monstro feio. A dívida não se paga, gere-se. Gaspar tinha razão.

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