A entrevista a Michael Porter: "Os políticos são cada vez mais duros com as empresas"

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Em 1994, Cavaco Silva encomendou-lhe um estudo sobre a falta de

competitividade da economia portuguesa e as conclusões eram claras:

ou Portugal reinventava o seu modelo económico ou morreria

lentamente. Quase 20 anos depois, Porter mantém a lógica mas afinou

o discurso. O lucro não pode ser objetivo; nem a caridade e o

comércio justo. O capitalismo precisa de um novo capítulo.

A relação entre negócios e sociedade está cada vez pior. O

lucro passou a pecado, o desemprego aumentou a animosidade contra as

empresas.

Sim, entrámos num ciclo vicioso na relação entre os negócios e

a sociedade. Os governos veem cada vez mais os negócios como um

problema, como uma fonte de coisas más na sociedade. Assustados, têm

aumentado o controlo e a regulação das taxas. Os líderes políticos

frequentemente são incapazes de desenvolver políticas públicas

favoráveis para os negócios, porque o ambiente político quase os

força a serem duros com os negócios.

Muitos gestores argumentam: "O que fazemos é gerir um

negócio. E ter lucros. E quando somos bem sucedidos contratamos. Ter

agenda além disso está fora de causa."

Milton Friedman defendia que a responsabilidade social dos

negócios era a maximização do lucro. E o simples ato de maximizar

o lucro era suficiente. A relação é muito mais complicada do que

isso. As comunidades dizem: É bom que as empresas X, Y ou Z façam

dinheiro, mas o que é que isso contribui para nós? Vemos os

lay-offs, vemos os nossos fornecedores locais que foram descartados,

vemos todo este desenvolvimento e poluição e pressão sobre os

recursos e percebemos que o lucro é bom e que de alguma maneira

precisamos do capitalismo, mas, ainda assim, há esta tensão

crescente entre parceiros que dependem um do outro.

Tem defendido a criação de valor partilhado. Como funcionaria?

O que é bom para os negócios, é bom para a sociedade. E isto

parece um jogo de palavras, mas são perspetivas bastante diferentes.

Valor partilhado quer dizer que criar benefício social é uma boa

forma de criar valor económico. Temos todo o tipo de pessoas com

problemas de saúde, de habitação... Então, vamos preocupar-nos em

mobilizar o capitalismo para satisfazer essas necessidades. E, por

acaso, podemos fazer muito dinheiro com isso. Não é apenas lucro

através dos gastos da sociedade ou dos gastos do consumidor, é

lucro a partir de um benefício para a sociedade e para o consumidor.

É um pouco dramático repensarmos o capitalismo. Tendo em conta o

seu passado e a sua história, está surpreendido que Michael Porter

tenha chegado a este ponto?

Todo o meu trabalho anterior é uma espécie de caminho para agora

examinar esta situação. Podemos abandonar o modelo mais

convencional sobre como competir que toda a gente imita. As grandes

estratégias do futuro têm de ter esta dimensão e as empresas vão

ter uma maior vantagem sustentável não fazendo só pequenos ajustes

de qualidade/preço, mas também comprometendo-se com comunidades que

nunca foram servidas, pensando mais fundo sobre as necessidades

humanas escondidas relacionadas com o seu produto.

Mas, a certo ponto, as empresas têm de escolher entre a

comunidade e o lucro, não acha?

Há muitas coisas que as empresas podem fazer que não envolvem

essa escolha. O valor partilhado diz-nos para irmos além disso. Não

é apenas por aparecermos com um programa voluntário para construir

casas que somos úteis. Ou darmos dinheiro a 72 causas sociais

aleatórias só porque se está a tentar construir uma reputação. É

preciso perceber qual é o produto, qual é o valor partilhado,

perceber onde é que ambos tocam as necessidades e os problemas

sociais importantes. Se é uma empresa de alimentos, vamos pensar em

nutrição, se é de energia, vamos pensar no uso dos produtos de

energia. De uma forma que funcione para o consumidor - não apenas um

esforço cínico para os forçar a contrair uma hipoteca que nunca

conseguirão pagar.

Dê-me um exemplo concreto.

Muita gente já ouviu falar na ideia de comércio justo. Muitas

vezes, o agricultor ou pequeno vendedor não recebe um pagamento

suficiente pelo seu produto ou colheita, de forma que os mercados

depois tenham maiores lucros. A ideia do comércio justo é dar um

pagamento justo ao fazendeiro, para que possa ter uma recompensa. Se

há uma determinada tarte, há uma determinada quantidade de riqueza,

apenas temos de partilhar mais dessa riqueza com o agricultor. Se

fizermos isso, somos boas pessoas e somos justos. A ideia de valor

partilhado diz que isto não é a forma correta de pensar. A

verdadeira oportunidade é aumentar o bolo, perceber como podemos

criar mais valor; o agricultor é recompensado ao participar e todos

ganham.

E há empresas que acreditam nessa ideia?

As empresas mais inteligentes percebem que se se treinarem melhor

os agricultores sobre como criar colheitas, se eles forem ajudados a

aceder aos fertilizantes e às sementes adequadas, se forem

auxiliados no melhoramento do sistema logístico que levam os seus

produtos ao mercado, conseguem-se agricultores muito mais produtivos

por hectare, aumenta-se a qualidade e pode pagar-se, e vai querer

pagar-se, um preço mais elevado por um produto de maior qualidade.

Mas não é através da caridade, não por ser "boa pessoa",

mas sim por aumentar o bolo, por criar valor económico. E ao mesmo

tempo criar valor social.

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