O mercado da dívida não recuperou da ressaca das eleições
francesas e gregas de domingo passado. Apesar de esperada, a vitória
do socialista François Hollande trouxe incerteza quanto à prometida
renegociação do Tratado Orçamental, enquanto na Grécia o panorama
político se pauta pela instabilidade que as dificuldades em formar
governo determinaram, aliado aos receios sobre uma possível saída
do país do euro. Como se não bastasse, Espanha voltou a estar no
radar dos mercados, por culpa da nacionalização da instituição
financeira Bankia.
Foi neste cenário que os juros da dívida dos países periféricos
negociaram nos últimos cinco dias. No caso de Portugal, os juros que
os investidores exigem para comprar dívida portuguesa fecharam a
semana a subir, mas na casa dos 8%, ou seja, próximo dos que
vigoravam quando Portugal pediu ajuda financeira internacional.
Contudo, os juros com prazos mais longos inverteram a tendência, com
as yields a recuarem para os 12% e os 11% a cinco e dez anos,
respetivamente.
Em Espanha, o grande acontecimento foi o máximo de quase seis
meses atingido pelos juros da dívida a dez anos. As yields
implícitas nas obrigações negociadas no mercado secundário
atingiram os 6,078%, o nível mais elevado desde o final de novembro.
A dois e a cinco anos, a tendência foi igualmente de subida, com os
investidores a exigirem taxas superiores a 3,6% e de quase 5%,
respetivamente.
Os esforços para formar governo provocaram também uma escalada
dos juros da dívida helénica a dez anos, que ontem terminaram a
subir para os 24,2%.
Pequeno partido pode ser a solução para Atenas
Um pequeno partido de centro-esquerda pode ser a solução para a
crise política na Grécia, evitando novas eleições em junho e, na
pior das hipóteses, uma eventual saída do euro.
Depois do fracasso das negociações para formar governo dos dois
partidos mais votados - Nova Democracia (conservador) e Syrisa
(coligação de esquerda radical) -, o terceiro mandatado para a
árdua missão, o ex-ministro das Finanças, Evangelos Venizelos, do
Pasok (socialista), obteve de Fotis Kouvelis, líder do Dimar, que
antes estava com a Syrisa, o apoio para um governo ecuménico de
salvação nacional pró-euro.
Os 19 deputados do Dimar mais do que garantem a maioria absoluta a
uma coligação com o Pasok e a Nova Democracia (ND), mas tal como
Kouvelis, o líder da ND, Antonis Samaras, exige "para um
governo durável" o aval da Syrisa, cujo chefe, Alexis Tsipras,
se recusa a participar num governo que não rejeite em bloco a
política de austeridade imposta pela União Europeia e pelo Fundo
Monetário Internacional, embora defenda a permanência no euro.
Venizelos tem ainda o dia de hoje para concluir com êxito a
missão, ou desistir dela, como fizeram os seus antecessores. Caso
continue a ser impossível chegar a consenso para formar governo,
caberá ao presidente grego, Karolos Papoulias, convocar os líderes
dos sete partidos com assento parlamentar, numa última tentativa de
criar um Executivo. Se também esta hipótese falhar, resta apenas
uma hipótese: partir para novas eleições - uma solução que só
32% dos gregos querem.
A verdade é que, embora rejeitem as medidas de austeridade
impostas, a maioria dos gregos quer manter-se no euro. Uma combinação
impossível, sobretudo para os alemães, que ameaçam deixar cair
Atenas. O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, já
avisou mesmo que a zona euro suportaria bem a saída do país do
euro, não havendo grandes riscos de contágio.