A fábula da formiga desmotivada

Caiu na rede é peixe? Nem sempre. Às vezes, caem nas redes (sociais) alguns textos que são verdadeiras aulas de senso comum e sabedoria popular.
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Um deles anda a aparecer com frequência na minha timeline. Ele versa sobre uma formiga que passou de enérgica trabalhadora a funcionária desmotivada.

Trata-se de uma fábula sobre a vida numa empresa (no caso, qualquer empresa. As fábulas servem justamente para isto, exemplificar, através de histórias fantasiosas, as verdades mais profundas). A versão que vou contar é a minha, mas o pano de fundo não varia das outras que andam por aí.

Pois bem, a formiga era eficiente e eficaz. Tinha tanta força e tanta motivação que, (quase) literalmente, carregava a empresa nas costas. Muito devido ao seu desempenho o negócio expandiu, cresceu. O céu parecia o limite.

Mas o dono da empresa, o gafanhoto, sentia-a incomodado com o facto de a formiga trabalhar sem supervisão. Também não gostava de sentir-se “formigodependente”. Aprendera em Havard que o trabalho deveria ser feito sempre em equipa. Daí contratou uma barata, formada em Oxford, para criar um plano de gestão de longo prazo, contratar novas equipas e colocar a formiga nos eixos.

Assim foi feito. Chamaram uma mosca para atuar como controller. A pulga tratava da qualidade emocional do escritório. A lesma, de tentar implementar o programa de eficiência total. A abelha ficou encarregada da gestão de sinergias. A cigarra com os RH. A borboleta dedicou-se a um ambicioso projeto de redecoração dos espaços, baseado no feng shui.

O gafanhoto vibrou ao ver aqueles profissionais com tantos skills e diplomas a labutar sob as suas ordens. Com eles vieram assistentes, subdiretores, estagiários. A empresa ganhou até um importante prémio atribuído por uma revista de gestão devido a exuberante diversidade dos seus colaboradores.

Só a formiga não estava feliz. Passava a vida a fazer relatórios para a mosca, a participar de reuniões com a lesma, a desenhar planos para a abelha e assim por diante, sem tempo para fazer o que mais sabia que era trabalhar duro de sol a sol.

O problema é que, por algum motivo, a empresa, antes muito lucrativa, estava agora a perder dinheiro. O gafanhoto contratou então uma coruja, a mais famosa consultora do bosque, para descobrir o motivo daquela sangria.

Depois de alguns meses de estudo, a coruja não tinha dúvidas. A folha de pagamentos estava muito pesada. Havia funcionários a mais na empresa. Era hora de dispensar alguém. O gafanhoto não teve dúvidas: mandou embora a formiga que há tempos demonstrava estar aborrecida.

Em menos de um ano, afogada em burocracias e papéis, sem produzir quase nada, a empresa estava falida, claro. Mas o gafanhoto nunca chegou a perceber o porquê.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “O burro nunca aprende. O inteligente aprende com sua própria experiência. Já o sábio aprende com a experiência dos outros”.

Edson Athayde escreve todas as sextas-feiras no Dinheiro Vivo

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