A fábula do presidente sombra

Publicado a

Sentado numa secretária espelhada, trajando a habitual gravata vermelha e fato azul, o ex-presidente rabisca um livro com uma caneta, exibindo a expressão facial de alguém que está profundamente mergulhado no trabalho. A fotografia serve como imagem de perfil de uma nova plataforma de comunicação que apareceu online na semana passada.

Entre as publicações visíveis na página principal estão frases como "O mundo inteiro está a rir-se de nós enquanto vamos para o inferno com as nossas Fronteiras, a nossa falsa Eleição Presidencial, e em todos os outros lugares!" e "O senado estadual do Michigan já começou a sua revisão da Fraudulenta Eleição Presidencial de 2020?"

Não é preciso um grande exercício mental para reconhecer o estilo perceber o intuito: From the desk of Donald J. Trump é a muito falada nova plataforma do ex-presidente norte-americano, desenhada para contornar a sua ausência das principais redes sociais, das quais foi banido em Janeiro. O site foi para o ar na mesma semana em que o conselho de supervisão do Facebook manteve a suspensão da conta do anterior governante.

Mas isto não é nenhuma rede social alternativa. O estilo visual faz lembrar o feed de outras redes sociais, com mensagens curtas e três botões laterais para gostar, partilhar no Facebook ou no Twitter. Só que não há qualquer elemento interactivo. Os leitores não podem comentar, não há discussão nem número de visitantes ou partilhas. É basicamente uma fonte unidirecional de pensamentos vindos de Donald Trump, em substituição do megafone que lhe foi cortado no Twitter. No fundo, é um blogue sem caixa de comentários.

Nem a tentativa de contornar a proscrição de Trump do Twitter resultou. Tinha sido criada uma conta na rede social para replicar as mensagens do blogue, @deskofdjt, e a empresa de Jack Dorsey imediatamente baniu esta conta também pela sua afiliação ao ex-presidente expulso.

"O site do presidente Trump é uma excelente fonte para encontrar os seus comunicados mais recentes e destaques do seu primeiro mandato", escreveu no Twitter o porta-voz Jason Miller. "Mas isto não é uma nova plataforma de rede social. Vamos ter mais informações nessa frente no futuro próximo."

No universo de apoiantes do ex-chefe de Estado, mesmo os que não subscrevem a loucura dos QAnon, Donald Trump ainda é o presidente legítimo dos Estados Unidos e o seu regresso é apenas uma questão de tempo. O seu círculo continua a promover a ideia de que se houver revisões dos boletins de voto a eleição de Joe Biden será anulada e Trump voltará à Casa Branca brevemente. Que haverá grandes revelações de fraude e a injustiça será corrigida. Que Trump está a trabalhar muito para continuar a agenda "América Primeiro."

Não há dúvidas de que subestimar Donald Trump é um erro que ninguém deve repetir, mas o delírio colectivo de grande parte dos conservadores é assustador. Folheando meios aliados ao ex-presidente e olhando para o que dizem muitos fazedores de opinião conservadores, encontra-se uma obsessão inabalável com a provocação aos liberais de esquerda. "Os liberais ficam loucos com X", "Os liberais odeiam Y", "Os liberais estão cheios de medo de Z".

Na realidade, a influência deles e do próprio Trump diminuiu de forma muito visível e a política regressou a um estado mínimo de estabilidade - o que não é sempre positivo. O facto de estarem a ser aprovadas tantas leis de restrição de eleitores nos estados republicanos é um alerta (literalmente) vermelho. O facto de congressistas como Lauren Boebert e Marjorie Taylor Greene promoverem posições tresloucadas e perigosas sem consequência dentro do partido é um aviso à navegação. O facto de Liz Cheney ter conseguido a proeza de parecer razoável no meio de um partido Republicano dominado pelo discurso extremista é outra advertência.

Não vem ai nenhum cachimbo da paz e o domínio de Donald Trump não foi exterminado. Por mais desanimador que isso seja, este blogue é um primeiro passo na segunda vida da sua confabulação política. O que não é? Uma forma de tornar Trump num presidente sombra. Essa tentativa é uma fábula que faz ricochete na realidade.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt