A Florida da Europa: Impostos de Gaspar ameaçam plano de Santos Pereira

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As Finanças estão a obrigar os reformados estrangeiros a pagar

impostos em Portugal, apesar de a lei permitir que em determinadas

condições gozem de isenção. Ou seja, o ministro Vítor Gaspar

parece em contravapor relativamente às intenções de Álvaro Santos

Pereira, o seu homólogo da Economia. O Dinheiro Vivo apurou que o

programa Reforma ao Sol, que visa transformar Portugal na Florida da

Europa para os reformados estrangeiros, vai avançar ainda este ano,

apesar de o nome de batismo estar ainda em aberto.

"O governo está empenhado em potenciar este segmento de

forma significativa e está a trabalhar num conjunto de medidas para

esse efeito. Quanto ao detalhe das medidas, será anunciado no devido

tempo", afirmou o gabinete do ministro da Economia. De qualquer

modo, o conjunto de incentivos e a montagem do programa serão sempre

o resultado do esforço conjunto de três ministérios: Economia,

Finanças e Negócios Estrangeiros. Segundo fonte ligada ao processo,

é previsível que as dúvidas agora levantadas a propósito da carga

fiscal sobre os residentes não habituais sejam definitivamente

esclarecidas com o arranque do programa. A ideia não é 100%

original. Corria o ano de 2006 quando o secretário de Estado do

Turismo Bernardo Trindade anunciou o novo produto estratégico para

Portugal: o turismo residencial, associado por natureza a outros

produtos estratégicos, como o golfe e o turismo cultural.

Um dos problemas que devem ser resolvidos com o novo programa

prende-se com a interpretação do conceito de dupla tributação. Há

quem entenda, tal como Filipe Sousa, da consultora PwC, que as

convenções para evitar a dupla tributação dão ao país de

residência, no caso Portugal, direitos de tributação exclusivos, o

que significa que o país onde a pensão é paga não a pode sujeitar

a tributação e que é o país de residência que o pode fazer.

Não existem dados sobre quantas pessoas estão neste momento

abrangidas pelo regime fiscal para residentes não habituais e a

maioria dos que entregaram a declaração de rendimentos relativa a

2009 e 2010 não recebeu ainda a nota de liquidação. Segundo a

consultora imobiliária Aguirre Newman, há cerca de 50 mil

proprietários estrangeiros de 925 mil imóveis no nosso país.

Segundo outro estudo, da Boston Consulting Group, residem em Portugal

cerca de 49 mil britânicos e 50 mil alemães, a maioria com mais de

instalar. A embaixada do Reino Unido em Portugal não tem números

exatos do número de britânicos residentes, mas admite que cheguem a

"60 ou 70 mil, dos quais cerca de metade se concentrará no

Algarve".

O regime fiscal para os residentes não habituais, criado em 2009

ainda pelo governo de José Sócrates, veio prever que as reformas de

residentes não habituais não pagassem IRS quando são oriundas de

outro país, mas parece não ser esta a leitura que a administração

fiscal está a fazer do regime. A conjugação das convenções de

dupla tributação com o regime fiscal dos residentes não habituais

pode permitir que os reformados estrangeiros que vieram viver para

Portugal possam não pagar impostos cá nem no seu país de origem,

mas o entendimento que tem sido transmitido pela administração

fiscal aos interessados é de que as pensões serão sujeitas a IRS.

Segundo Constantino Jordan, conselheiro de investimentos em

turismo e propriedades no Algarve, o governo devia facilitar e não

dificultar a vida aos estrangeiros. "Na Suécia, os reformados

não pagam impostos. E aqui, os poucos que ainda cá estão vão ser

afugentados com impostos? Os reformados estrangeiros também estão a

viver no limite, porque muitos tinham dinheiro investido na Bolsa e

estão descapitalizados, as propriedades que compraram valem hoje

menos um terço ou metade do que valiam", diz Constantino

Jordan, filho de André Jordan. "Nesta fase, o governo devia

baixar o IMI para atrair pessoas e não taxar ainda mais. Hoje,

profissionais altamente qualificados podem viver em qualquer ponto do

mundo e trabalhar à distância - podiam viver em Portugal, se fossem

incentivados. Mas não, estamos a matar o bom que temos e a dar tiros

nos pés", conclui.

E não são só os mais velhos que têm interesse em mudar para

cá. Segundo Constantino Jordan, "há um número crescente de

chineses e russos que têm recursos financeiros e querem sair dos

seus países". O Algarve sempre atraiu jogadores de futebol

estrangeiros que têm casas de férias na região, mas Constantino

Jordan aponta uma nova vaga de potenciais compradores: "Empresários

russos que querem criar as suas famílias num país seguro,

organizado, e que Portugal deveria incentivar porque vale mais um

residente que gasta cá dinheiro todo o ano do que um turista que

fique num hotel de cinco estrelas."

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