Steve Jobs tinha uma raiva incontrolável por aquilo que considerava ser um roubo de igreja, e mais ainda por ter consciência de que não podia impedi-lo de dominar o mercado.
"Vou gastar o meu último suspiro se for preciso, e vou gastar até ao último centavo dos 40 mil milhões de dólares que a Apple tem no banco para corrigir este erro. Vou destruir o Android, porque é um produto roubado. Estou disposto a lançar uma guerra termonuclear contra isto."
Eis porque Jobs dizia que era um produto roubado: a Google comprou o Android em 2005. A partir de 2006, o CEO da Google, Eric Schmidt, fez parte do conselho de administração da Apple. É quase impossível que não tivesse qualquer conhecimento do desenvolvimento do iPhone, que viria a ser revelado em 2007. Por outro lado, os protótipos do Android eram muito mais similares ao BlackBerry OS que a qualquer outra coisa, até essa altura; mas quando Schmidt se escusou da sua função no conselho de administração da Apple, em 2009, tornou-se bastante clara qual a inspiração do interface do Android.
Fast forward. Steve Jobs morreu antes de ver o poderio estrondoso da Google e da Samsung no mercado mundial. A estratégia de processar a torto e a direito os fabricantes que usam Android não deu grande resultado, talvez apenas abrandando o processo de domínio mundial. O sucessor de Jobs, Tim Cook, deixou um pouco de lado a "guerra termonuclear" nos tribunais. Durante os últimos anos, foi posta em causa a capacidade da Apple de continuar a inovar. Foi ultrapassada nos "wearables", a quota de mercado do iOS desceu para níveis históricos, entre os 13% e 15%, e teve de correr atrás do prejuízo com o sucesso dos tablets de 7 polegadas.
Até que chega Setembro de 2014, e Tim Cook anuncia aquilo que Steve Jobs não queria - dois iPhones de tamanhos diferentes e bem maiores que o original. Acho que nem os mais optimistas adivinharam o sucesso que a Apple ia ter com o iPhone 6 e 6 Plus. Eu certamente não acreditava que os chineses iam comprar iPhones que nem pãezinhos quentes e pôr a Apple - atenção a isto - em primeiro na China.
À frente da Xiaomi e da Samsung, segundo diz a consultora Canalys. Mais ainda, quando a Samsung anunciou os resultados do quarto trimestre e do ano fiscal, na semana passada, percebeu-se que a Apple provavelmente igualou ou ultrapassou a fabricante sul-coreana no mercado mundial de smartphones, durante o quarto trimestre de 2014. Aqui pelos Estados Unidos, os iPhones gigantes são omnipresentes - e as pessoas encostam-nos às orelhas para falar ao telefone, sem auriculares, o que só é comparável com os telemóveis gigantes do início dos anos noventa.
Se isto não é uma guerra termonuclear valente, em que a Apple regressa ao topo depois de ser dada como derrotada durante três anos, não sei o que é. Steve Jobs não vai ter o que queria, porque o Android continuará a ser dominante e o mais adequado para a massificação dos smartphones. Os derivados, como o Sailfish e o BlackPhone, serão nichos. Os concorrentes, como o Windows Phone e o BlackBerry OS, vão ocupar franjas do mercado. Mas no topo de gama, no segmento mais caro e cobiçado, a guerra virou a favor da Apple.