A história dele dava um filme. A de Steve Jobs já deu seis (três documentários e três ficções baseadas em factos reais). Filho de um médico e de uma doméstica devota católica, António Carlos Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1950, cinco anos antes de Steve Jobs - filho de pai sírio e mãe norte-americana e adotado aos 2 anos por um casal que fez vida em Mountain View, Califórnia.
Hoje, aos 68 anos, chama-se Segyu Rinpoche e é um monge budista reconhecido pela medicina tibetana, com uma fundação no coração de Silicon Valley chamada Juniper. Por Skype, este homem calmo mas assertivo, que continua a falar português do Brasil sem influência americana, explica-nos como conheceu em 2004 Jobs. "Foi o Lawrence Levy [CFO da Pixar e um dos estrategas que ajudaram Jobs a gerir de forma mais inteligente depois da saída abrupta da Apple] que nos apresentou, numa altura em que o Steve já se debatia com a doença."
Rinpoche ganhou reputação nos anos 1990 em projetos conjuntos com a Universidade de Stanford, a que ajudaram os seus estudos mais científicos em psicologia transpessoal - um misto da psicologia clínica e tradições espirituais do Oriente. Em 1999, começou a ensinar Lawrence e, juntos, criaram em 2003 da fundação sem fins lucrativos Juniper. O objetivo? Levar práticas de meditação tibetanas e filosofia oriental para a vida moderna (longe dos ensinamentos de teor religioso). "Tento fazer que quem me consulta enfrente a pressão sem ter uma desestabilização emocional ou um sufoco, para cumprir todo o seu potencial."
Quando conheceu Jobs não viu o ícone:"vejo todos os homens de forma igual - fui a quinta pessoa do seu círculo pessoal a saber que estava doente - e comecei a ajudá-lo com o lado espiritual em consultas em minha casa." Depois tiveram o primeiro desaguisado.
"O Steve era um perfeccionista em tudo, inclusive com a saúde, e queria tratar do tumor de forma holística, não queria a operação. Eu estava contra e, por isso, não nos vimos durante dez meses."
Foi quando a doença piorou que Jobs aceitou fazer a operação e voltou a recorrer a Segyu - este começou a ir quase diariamente à casa do ícone da Apple desde 2006. "Tivemos sempre uma boa relação, de confiança", explica Segyu, que inicialmente o ajudava a meditar e a canalizar as suas energias para o sítio certo. Não falavam de tecnologia propriamente dita, mas "sobre quem somos, porque estamos aqui". Em 2005, ajudou o líder da Apple a preparar o seu lendário discurso na Universidade de Stanford, que popularizou a citação "Stay hungry, stay foolish". "Estive alguns dias a falar com ele sobre o mundo, filosofia e sobre os seres humanos em geral e como ainda estamos atrasados naquilo que podemos ser."
Segyu recorda-se de um episódio que Lisa Jobs (que teve uma relação complicada com o pai) retrata no seu livro - foi através deste livro que chegámos ao monge: "Numa sessão com ele em 2009, a Lisa passou e eu pedi-lhe para tocar nos pés do pai, era uma forma de os aproximar como pai e filha." E como era a casa de Jobs? "Era zen e ao estilo dele, parecia simples, mas escondia muita tecnologia".
O líder da Apple trabalhava muito com o teclado ao colo e com o computador de secretária" e usava um programa de escrita "mais artístico feito para si", que deu origem ao Pages (em 2005). Tinha uma "opinião muito crítica sobre o sistema de saúde e de educação dos EUA", embora falassem pouco de política. O mestre budista diz que tem boa relação com a mulher de Jobs, Laurene, e recorda que procurou dar a Steve "ferramentas para através do nome que tinha e do eco das suas palavras se tornar mais emocional e um homem da sociedade, importante para a civilização". Lamenta não ter tido mais tempo com Jobs "para ajudá-lo a ter uma visão mais humanística do mundo".
"A paz espiritual era muito importante para alguém como o Steve. Ele era um mestre de marketing, gostava muito da estética zen e da filosofia budista, mas interiormente precisava que essa filosofia fosse mais atuante para chegar onde ele queria." Segyu queria "conduzi-lo para uma paz exterior e interior maiores". No último dia de vida de Jobs, a 5 de outubro de 2011, Segyu conta sem grandes pormenores: "Foi emotivo, beijei-o e ele sussurrou-me um "muito obrigado" horas antes de morrer."
O monge explica que a tecnologia traz avanços importantes - o seu livro de apoio nas sessões é um iPad -, mas cria uma desconexão entre pessoas grande e lembra que Jobs tentava que os filhos não vivessem parados a olhar para ecrãs. "Não proibiam, davam-lhes era atividades (piano, línguas ou aulas equestres no caso da filha mais nova Eve) para estarem ocupados". O seu trabalho em Silicon Valley, "uma zona rica assolada por pessoas que vivem sobre stress incrível", envolve trabalho espiritual com os principais executivos de IBM, Google, Facebook e Apple. É uma "missão sem fim à vista".
(este artigo saiu inicialmente no terceiro número da revista Insider)
(A Apple mantém uma página dedicada à memória de Steve Jobs, numa espécie de livro de condolências aberto.)