A história do novo aeroporto de Lisboa parece fadada a não acabar. Não obstante as trapalhadas e os intermináveis avanços e recuos que o processo já conheceu, o ministro João Galamba resolveu chegar gasolina ao fogo e considerar que "acha muito longe" a solução de Santarém. Pior, disse que o "achismo" não condicionava em nada o trabalho da Comissão Técnica Independente (CTI), cuja natureza - citando-o - "não é estudar localizações".
A primeira grande perplexidade que esta afirmação provoca é quase instintiva: se é para decidir com base em palpites, para quê reunir técnicos e pedir-lhes para avaliar diferentes alternativas? A segunda decorre da anterior: se a CTI não estuda o fator localização, estuda o quê em concreto? Nada disto faz qualquer sentido e só comprova a ideia de que o Governo está a gerir taticamente um dossiê político da maior importância, na tentativa de corrigir o tiro do famoso despacho Montijo/Alcochete.
Insistir neste comportamento é brincar com coisas sérias. Este processo, só em estudos técnicos, já pesou mais de 70 milhões ao erário público e representa custos de oportunidade enormes para a economia nacional. Exemplo disso mesmo, são os 600 milhões que, de acordo com o estudo de impacte ambiental da ANA, datado de 2019, se perdem anualmente em operações turísticas, pelo facto de a solução Portela + Montijo não ter avançado. Ou seja, estamos literalmente a atirar dinheiro pela janela fora, sem que isso instigue qualquer decisão.
E seria uma decisão relativamente fácil de tomar. Primeiro, porque, como demonstrou o estudo da Associação Comercial do Porto feito há mais de 15 anos, a solução de aproveitamento da base militar do Montijo, como aeroporto complementar ao atual, seria a mais custo-efetiva e a mais rápida de executar. Segundo, porque um Estado que usa fundos europeus para pagar despesa corrente não tem dinheiro para construir aeroportos de raiz. Terceiro, porque Lisboa não quer ficar sem a Portela, o que se compreende. São muitas as razões - e haveria mais algumas, nomeadamente ambientais - para que se feche uma posição e não se perca mais tempo. A não ser que o Governo goste de histórias intermináveis e, aí, só se deixa embalar quem quer.
Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto