A indústria do calor humano

Publicado a

A produtividade de um americano equivale à de cinco brasileiros,

segundo a revista Exame. Para que isto mude, são necessários

investimento pesado na educação e três ou quatro gerações. Até

lá, em vez de disfarçar o indisfarçável, o caminho é investir no

calor humano

Um argentino emigrado no Brasil perdeu os cartões de crédito no

Carnaval do Rio de Janeiro de há dois anos. Um dos cartões era de

um banco americano, o outro de um banco brasileiro. Ligou primeiro

para o banco americano para participar o sucedido e bloquear a conta.

Resolveu o assunto em cinco minutos. Ligou a seguir para o banco

brasileiro e, só a ouvir o "em breve atenderemos sua chamada",

passou-se um quarto de hora. Quando finalmente uma operadora surgiu,

as primeiras perguntas que fez não foram sobre detalhes técnicos.

Foram: "Ai meu Deus, mas está tudo bem com o senhor? Foi

assaltado? Machucaram-no? Esse Carnaval está um perigo...".

Antes de entrarmos nos méritos das formas de atendimento,

foquemo-nos no conteúdo: o banco americano foi mais - muito mais -

eficiente. O exemplo é apenas a ilustração do que a revista Exame

destaca num dos últimos números: a produtividade de cada americano

equivale à produtividade de cinco brasileiros.

As pequenas diferenças estão, primeiro, no método de trabalho

(o trabalhador médio brasileiro é geneticamente desorganizado),

depois, em ritos culturais (na América do Sul, como no Sul da

Europa, dedica-se mais tempo ao período de almoço do que na América

do Norte, como no Norte da Europa), e, finalmente, na auto-exigência

(de que a falta de pontualidade é, entre outros, um problema

sintomático).

No entanto, a diferença básica está, como em quase tudo, na

educação, como sublinha a Exame. Nem em uma, nem em duas,

provavelmente, nem em três gerações, o Brasil conseguirá

acompanhar o nível de produtividade dos EUA porque nem em uma, nem

em duas, provavelmente, nem em três gerações a educação

brasileira conseguirá acompanhar o nível de investimento do ensino

dos EUA.

Um investimento que há séculos os americanos, e antes deles os

seus "avós" britânicos, consideram prioritário e que resultou

nas lideranças atual dos EUA e anterior do Reino Unido. Um

investimento que os países orientais iniciaram há décadas e começa

a dar frutos. Um investimento que, no fim das contas, sempre se

traduziu em domínio, mais cedo ou mais tarde - os cartografistas

de Sagres deram condições para o período mais rico da história de

Portugal, o conhecimento da ciência militar elevou Roma a Império,

os gregos marcaram a história através da sabedoria e assim

sucessivamente.

Mas até que Dilma Rousseff cumpra a sua promessa de aposta

prioritária na educação, a economia global não vai ficar à

espera que o Brasil chegue à escola. Por causa disso, em São Paulo,

reúnem-se especialistas de negócios e comunicação a montar

campanhas para apagar a imagem de "país divertido mas

ineficiente". Talvez essa iniciativa seja ela própria ineficiente.

Talvez seja mais eficiente, em vez de maquilhar o que ainda não

existe, a produtividade, desenvolver o que já há, o calor humano.

O calor humano que impede que o Mundial do Brasil de 2014, em

qualquer circunstância e apesar de tudo, fracasse. O calor humano

que virá em socorro de um jornalista que perca o acesso à internet

ou de um turista que fique sem cartões de crédito. O calor humano

daquela telefonista. O calor humano que (ainda) não se aprende na

escola.

Jornalista

Crónicas de um português emigrado no Brasil

Escreve à quarta-feira

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt