Tempos desafiantes geram muita energia que, se armazenada corretamente, pode-se tornar numa incrível fonte de inovação. A resposta à covid-19, trouxe muitas abordagens diferenciadoras o que prova que a necessidade é de facto a mãe da invenção. Sem o luxo do tempo para testar as soluções para problemas imediatos a aprendizagem torna-se imediata, e surgem lições para o agora, percebendo-se ainda com mais clareza quais as necessidades mais críticas a longo prazo.
Estas soluções têm muitas vezes a marca das "inovações frugais" - ou seja, fazer mais com pouco e, para muitos, ser criativo e engenhoso quando surgem restrições institucionais ou de recursos. Esta inovação costuma ter ênfase em soluções de baixo custo ou acessíveis. Esta tem sido a realidade para muitos países, empresas e instituições o que quer dizer que acaba por tornar os negócios internacionalmente competitivos e é responsável por atingir desenvolvimento sustentável.
Neste caso, inovações frugais no setor da Saúde não são equivalentes a soluções de baixa qualidade, mas sim à habilidade de disponibilizar cuidados da melhor maneira, dentro das circunstâncias e limitações de recursos. Por mais desafiante que a atual crise de saúde pública seja, este tipo de inovações traz oportunidade de expandir o acesso a cuidados e assegurar que os mesmos, apesar de poderem não estar aperfeiçoados, respondem efetivamente a necessidades das pessoas. Aqui estão alguns exemplos da pandemia:
-- Telemedicina: A utilidade e valor da tecnologia para a medicina - a chamada telemedicina - tem sido estudada durante décadas, mas a sua implementação não era universal. Atualmente, de modo a proteger utentes, esta prática é disseminada, sendo que apenas são encaminhadas para hospitais após uma triagem.
-- Cuidados em Casa: Além das consultas virtuais e de recomendações telefónicas, a pandemia também privilegiou os cuidados e a quarentena em casa, algo que nunca tinha sido feito. Será que este momento poderá ser aproveitado para salientar a importância, junto dos profissionais e pacientes, deste tipo de tratamentos? Apesar de ainda marginais, já existem monitorizações remotas que podem ser feitas que poderão sustentar as terapias de todos - menos aqueles que estão doentes com alguma severidade e que requerem continuidade de cuidados.
-- Máscaras e viseiras: A reutilização de materiais já existentes em ambiente hospitalar e de escritório para uma proteção disseminada da população foi uma das inovações que mais rapidamente foi identificada e implementada. Apesar de existirem algumas mais reguladas que outras, foi uma resposta crucial.
Identificamos neste momento três abordagens que ajudaram a colmatar a ameaça da pandemia: reaproveitar, reutilizar e agir rapidamente. Operacionalizar uma estratégia de inovação envolve método e disciplina, e a mesma deverá ser regularmente controlada. Adicionalmente, é importante envolver as comunidades na definição dos problemas e no desenvolvimento das soluções.
"Inovação" tornou-se numa das palavras do momento, e pode significar tudo ou nada, gerando uma variedade de respostas, de entusiasmo a ceticismo.
Mas a verdade é que, quando o mundo finalmente ultrapassar este desafio, a lição mais importante será aprender de todos e para todos. A pandemia pode servir como o maior nivelador de sempre e ensinar-nos a reconhecer a fragilidade existente em todos os sistemas de saúde e a necessidade de estratégias colaborativas envolvendo todos os atores do sistema de saúde, públicos, privados ou sociais, prestadores ou pagadores, a comunidade científica, as associações de doentes e muitos outros. Esperamos que este ponto positivo, pelo menos, se concretize.
Francisco Miranda Duarte, diretor-geral da Ordem da Trindade