"Ninguém chega a 500
milhões de amigos sem fazer alguns inimigos." Foi assim que o filme de David Fincher, 'A rede social', apresentou
Mark Zuckerberg no final de 2010. Um cromo, um génio, um traidor. Que fez "alguns" inimigos pelo caminho, enquanto se transformava num dos homens mais importantes do século XXI.
O mesmo podia ser dito de qualquer um de nós, na verdade. Qualquer pessoa que use o Facebook há alguns anos fez inimigos na rede social - ou, no mínimo, estragou uma relação por causa dela.
Sejamos honestos, o Facebook deu-nos cabo da vida. Tornou-se tão intrusivo que é impossível escapar-lhe; se não pomos lá os pés, falhamos por omissão ("O quê?! Não me enviaste uma mensagem de parabéns no Facebook? Não és meu amigo a sério.") Se publicamos todos os dias, temos a ansiedade da resposta ("ninguém gostou desta foto, estarei feia?"). Se não publicamos, mas vamos lá ver o que há no Feed de Notícias, descobrimos o que não queremos sobre pessoas com quem nem sequer nos relacionaríamos se não fosse o Facebook. Há tantas versões de TMI (too much information) na rede social que devia ser possível categorizar o Feed dessa maneira.
O fascinante no Facebook é que toda a gente se queixa dele, mas são raras as pessoas que realmente deixam de o usar. É como uma droga social. Fazem-se textos brilhantes sobre como a geração dos anos setenta e oitenta foi a última que brincou na rua e só tinha dois canais e punha mercúrio-cromo nos joelhos esfolados, enquanto a nova geração só sabe jogar Qualquer-coisa-Ville e tirar 'selfies' com bico de pato para pôr no Facebook, esse site maléfico onde as pessoas perdem a noção da vida real. E onde se publica o texto? No Facebook.
Sejamos honestos, esta rede é uma maldição. Um 'gosto' fora do sítio e há uma amiga que envia um SMS cheio de mágoa, porque "nunca pensou" que eu fosse apoiar o que fulano de tal disse sobre o tema polémico X. Uma partilha mal pensada, e o patrão começa a pensar duas vezes sobre se devia ou não ter dado aquela promoção.
Depois, é todo o lastro que esta rede do demónio deixa na nossa vida ao longo dos anos. Antes, terminar um namoro consistia em apagar o número de telefone e fazer fogueira com as metades das fotos em que o dito-cujo aparecia. Talvez doar os presentes dele para desocupar espaço lá em casa. Mas agora, fica um rasto de embaraços na rede social. As fotos identificadas por amigos comuns, os check-ins, as partilhas de vídeos com dedicatória, as notas escritas em dias felizes. É como se o passado ganhasse existência própria e não fosse possível matá-lo com uma paulada na cabeça. Pior, o ex há-de aparecer a espaços identificado nas fotos de amigos, o que a) é uma chatice se foi preciso uma ordem judicial para ele deixar de chatear b) é uma chatice se ainda gostamos dele c) é uma chatice se os amigos tomaram o partido dele.
Para não falar, obviamente, das pessoas que conhecíamos ao de leve e que se revelam autênticas psicopatas no Facebook. Antes, estas relações resumiam-se ao jantar anual da empresa ou à reunião do condomínio. Agora, é levar com as discussões homofóbicas ou futebolísticas pelos olhos dentro todos os dias. Quer queiras, quer não, vais dar com um feto abortado no teu Feed de Notícias.
E ainda assim, estamos todos lá. Mark Zuckerberg, espero que estejas contente com o que nos fizeste. Venham mais dez anos, porque estamos todos viciados na vida uns dos outros.