A maldição do mais rico

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A ascensão da empresa Americanas, gigante brasileira de venda a retalho, teve uma inversão dramática nas últimas semanas quando, nove dias depois de ser empossado CEO, Sergio Rial apontou em comunicado à comissão de mercados e em reunião com acionistas um deficit estimado em 20 mil milhões de reais [3,65 mil milhões de euros] nos balanços da empresa por "inconsistências" que se arrastavam "de cerca de sete a nove anos".

Rial demitiu-se, a Americanas entrou em bancarrota, a bolsa brasileira tremeu e no pano do até então incensado trio de gestores que a controlava, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, caiu a primeira nódoa.

Sicupira (7,8 mil milhões de dólares de fortuna avaliada) é o quarto homem mais rico do Brasil. Telles (11 mil milhões), o terceiro. E Lemann (22,8 mil milhões) o número um, segundo as contas da revista Forbes. Eles são donos da empresa líder mundial no mercado das cervejas, além do Burger King, da Heinz Ketchup e de muito mais.

O escândalo da Americanas, entretanto, lembra-nos que uma maldição paira sobre os donos do título de "o mais rico do Brasil".

Entre as dívidas do gigante do retalho estão uns milhões para com o Banco Safra, cujo fundador, Joseph Safra, disputou a posição de "mais rico do Brasil" com Lemann por alguns anos e, no auge, teve a sua fortuna avaliada em 23,3 mil milhões de dólares.

Recentemente falecido, atravessou as divergências com irmãos e cunhadas com discrição em vida mas, já depois de morto, o seu filho, Alberto Safra, abriu um doloroso processo contra a mãe e dois irmãos na justiça americana, acusando-os de o terem prejudicado na herança.

Joesley Batista fundou, com os irmãos José Junior e Wesley, a JBS, uma companhia que começou por ter impacto regional no estado do Goiás mas que cresceu até se tornar a segunda maior do mundo no ramo da exportação de carne.

Rico e poderoso mas acossado pela Operação Lava Jato, um dia entrou na residência oficial de Michel Temer pelos fundos, com um gravador no bolso, para gravar o então presidente do Brasil a admitir que a JBS pagava uma mesada a Eduardo Cunha pelo silêncio deste - Cunha fora o presidente da Câmara dos Deputados que decidira colocar em votação o impeachment de Dilma Rousseff do qual Temer se beneficiaria para subir ao poder.

A gravação, que serviria para lhe diminuir a pena na Lava Jato, levou-o, no entanto, a uma fuga para os EUA, primeiro, e à prisão, ao lado dos irmãos, depois.

Eike Batista, com fortuna avaliada em mais de 30 mil milhões de dólares em 2011, chegou a sétimo homem mais rico do mundo no início da década passada, surfando no sucesso da descoberta de petróleo ao largo do Rio de Janeiro.

Em 13 de setembro de 2014, o Ministério Público Federal denunciou-o pelos crimes de manipulação de mercado e uso indevido de informação privilegiada e, a 26 de janeiro de 2017, teve a prisão preventiva decretada por ter pago suborno de 16,5 milhões de dólares ao então governador do Rio. Três dias depois entregou-se e continua preso.

No Brasil, já se sabe, não dá propriamente sorte ser pobre. Mas ostentar o título de "mais rico" do país, também não.

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