Senhora Ministra da Saúde, não sou especialista em saúde pública. Mas não posso deixar de me congratular com a firme vontade que demonstra em reorganizar um setor onde, com frequência, se tentam resolver os problemas apenas despejando mais dinheiro sobre o que já existe.
Todavia, não sabendo nada de saúde pública, sei alguma coisa de comunicação. E, permita-me que lhe diga, a Senhora Ministra tem ainda um longo caminho a percorrer neste domínio.
Nota-se que está melhor. No início falava demais - depois passou a ser mais contida, o que reflete bem o trabalho dos seus assessores de comunicação. Mas às vezes ainda tem umas gaffes. Aquela de que dedica setenta por cento do seu tempo ao INEM era escusada.
Contudo, não é sobre esses pequenos deslizes que lhe quero falar, mas da sua decisão de assumir a tutela da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, um organismo que até há poucos dias se encontrava sob a alçada de uma das suas secretárias de Estado. Reconheço que não é uma opção nova e que, provavelmente, até faz sentido. Mas, numa altura em que a IGAS está a investigar as mortes ocorridas durante a greve do INEM, esta decisão não lhe fica bem.
Sei que a posição oficial do Ministério é de que a opção decorre de uma simples reorganização administrativa. Sei também que no passado outros ministros tutelaram essa inspeção-geral, como foi o caso de Marta Temido e de Adalberto Campos Fernandes. Subscrevo igualmente as palavras deste ex-ministro quando afirma que seria “ofensivo sugerir que a ministra se propunha interferir no trabalho da IGAS”.
Todavia, a ideia que fica é que a Senhora Ministra pretende controlar mais de perto o processo de investigação de que a IGAS está incumbida. Volto a dizer que não coloco em causa a bondade da sua decisão, mas a imagem que deixa é essa, fica a dúvida a pairar no ar. O que não é admissível… porque, em última instância, a vai fragilizar. É que, como já na antiguidade clássica se sabia, “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer”.
Enfim, é uma simples dica que lhe deixo - tem dois mil anos mas continua a ser atual. E faço-o, não porque a queira ver fora do Ministério, mas porque considero que a estabilidade governativa é essencial.
Agora, não se esqueça de que, ao assumir um cargo político, a comunicação passou a ser um fator crítico para o sucesso do projeto que pretende executar. E já deu para ver que esse não é o seu forte.
Professor da Porto Business School