No dia 16 de junho, quarta-feira, a Reserva Federal dos Estados Unidos da América surpreendeu, ao anunciar a sua intenção de aumentar as taxas de juro já a partir de 2023, antecipando o "dot plot" (calendário de intenções), em pelo menos um ano.
Até então, os membros do banco central tinham tentado desvalorizar os receios em torno da inflação, afirmando que os picos registados no índice de preços no consumidor já eram esperados num cenário pós-confinamento e de retoma da economia, reforçando a ideia de que o fenómeno seria meramente transitório e insistindo na importância de manter o estímulo monetário em vigor, a fim de apoiar a recuperação económica. Por esta razão, o mercado financeiro foi surpreendido, com muitos investidores - que tinham apostado fortemente em ações de crescimento - a temerem o fim deste ciclo reflacionista.
Depois de 14 meses de crescimento, esta súbita mudança no sentimento dos investidores desencadeou um aumento da volatilidade do mercado, com muitos a deixarem a aversão ao risco assumir o controlo e, em pânico, tentarem fechar as suas posições, causando perdas de muitos pontos percentuais nos principais índices bolsistas em todo o mundo.
Na sequência do anúncio, também o índice da moeda americana, que mede a performance do dólar em relação às outras seis moedas principais, subiu 1% em poucas horas. Esta subida do dólar continuou nos dias seguintes, somando mais um ponto percentual antes do fecho dos mercados no final dessa semana.
No entanto, apesar do furor gerado, o timing deste anúncio parece ter sido perfeitamente calculado para que potenciais impactos negativos sobre os mercados financeiros fossem minimizados. Membros do FOMC (comité que decide a política monetária da Fed) tinham programadas nada menos que 11 aparições públicas na semana seguinte ao anúncio, incluindo o habitual testemunho do presidente da Fed ao Congresso.
Estes momentos mediáticos serviram para acalmar os mercados, passando a mensagem de que apesar de estar a ser considerada a antecipação do apertar das políticas monetária e de compra de ativos, tal medida não será aplicada no imediato, rejeitando a ideia de intervenções preventivas para contenção de potenciais riscos inflacionistas e comprometendo-se a agir apenas se tais riscos se materializarem.
A Fed fez o que mais tarde ou mais cedo teria que fazer; iniciou o diálogo sobre a antecipação do tapering (redução gradual das suas atuais políticas monetárias e de compra de ativos), já que é inegável que os riscos inflacionistas estão a crescer, com os preços da imobiliário e das matérias-primas, como o petróleo, por exemplo, a contribuírem para uma aceleração do aumento dos preços dos bens de consumo.
Os bancos centrais podem influenciar o comportamento dos agentes económicos de duas formas distintas: Agir, ou então apenas afirmar que o vão fazer, com os eventos de dia 16 de junho a ilustrarem perfeitamente o segundo cenário. Enfrentando o dilema da necessidade de apertar as suas políticas, algo que implicaria o risco de prejudicar a recuperação económica e de causar estragos nos mercados financeiros, a Fed deixou um aviso aos agentes económicos, sem, no entanto, tomar nenhuma medida decisiva.
Entretanto, desde o dia do anúncio, a volatilidade nos mercados diminuiu e os índices bolsistas atingiram novos máximos históricos. Talvez ainda seja cedo para realizar uma análise final a este episódio, já que a reunião de agosto em Jackson Hole será um novo momento marcante, mas para já parece que a Fed deu uma lição de mestre em como deve comunicar um banco central.
Ricardo Evangelista, analista sénior da ActivTrades