A novela da vida real

É difícil, é doloroso, é triste, é inconcebível para muitos dos meus amigos de geração aceitar a hipótese de Lula ter-se esquecido do que era ser bom.
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“Se você tem certezas sobre alguma coisa é porque está mal informado”. Esta frase anda a ser replicada pelos murais do Facebook no Brasil. É uma síntese perfeita do que anda a passar-se por lá. E um bom ponto de partida para a nossa conversa de hoje.

O Brasil anda afogado em narrativas. O combo hiperativo formado pelas redes sociais+meios de comunicação tradicionais criou uma atualidade em estado líquido. A história escorre pelos dedos dos brasileiros.

Storytellers de todo o planeta deveriam rumar esta semana para Brasília. É raro podermos assistir a embates míticos reais. Lula tornou-se um caso de estudo. Ninguém consegue afirmar com certeza o que restará (o que ainda resta) do pai dos pobres, do herói de toda uma geração de esquerda.

Em “Star Wars”, Anakin Skywalker descobre o lado negro da força e acaba dominado por ela. A tragédia de Ícaro foi encantar-se pelo Sol, esquecendo que as suas asas eram de cera.

É difícil, é doloroso, é triste, é inconcebível para muitos dos meus amigos de geração aceitar a dura hipótese de Lula ter-se esquecido do que era ser (ou de nunca ter sido) um homem bom.

A sua queda em desgraça não é apenas dele, é a de um projeto de colaborativo de país (no sentido de sonhado por muitos, por milhões).

É difícil (para não dizer impossível) para os opositores do PT acreditarem na boas intenções dos seus militantes. O inverso também. Eles leem o mesmo livro mas com sinais cruzados. O branco de um é o preto do outro. E vice-versa. E versa-vice.

A língua falada e escrita pelas partes pode ser o português mas os dicionários usados não são os mesmos. As palavras ganham significados diferentes dependendo de quem as diz, de quem as ouve, de quem as lê. É assim que um país transforma-se numa Torre de Babel.

Poderia escolher muitos exemplos para demonstrar como o Brasil de hoje é muito mais uma guerra de narrativas do que uma batalha de ideias. Pesco um trecho de uma crónica antiga de um amigo, o jornalista Nelson Motta. Ele diz o seguinte: “Lula inventou uma bizarra luta de classes, em que não são os pobres que odeiam os ricos por sua opressão, exploração e privilégios, são os ricos que não suportam que os pobres comam, tenham um teto e, suprema afronta, viajem de avião pagando em dez vezes. E não se contentam em explorá-los e desprezá-los, amam odiá-los, logo eles, que vão consumir os bens e serviços que os ricos produzem para ficarem ainda mais ricos. Isso não é coisa de rico, é de burro, e Lula, rico, de burro não tem nada”.

A novela da vida real, afinal, é da vida surreal. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos. Gostaria de acreditar que o bem vencerá sobre o mal. O problema é descobrir quem é que está do lado do quê.

Leia todas as crónicas do publicitário Edson Athayde aqui.

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