Numa mesma semana tivemos em Portugal o pico de um novo surto de covid-19 e, em França, a segunda volta das eleições legislativas onde a grande questão girou em torno dos resultados que o partido de Marine Le Pen poderia alcançar. Não havendo qualquer relação entre estes dois fenómenos, a verdade é que eles nos lançam uma questão desafiadora.
A pergunta que coloco é: até que ponto o crescimento rápido de determinado quadrante do espetro político pode ser visto como a propagação de um vírus? Neste momento a área política que mais tem crescido é a extrema-direita, embora noutros momentos históricos tenham sido outras.
De facto, pode-se hoje falar de uma verdadeira pandemia dos movimentos radicais de direita no contexto dos países democráticos - porque nos outros o “vírus” não consegue penetrar. Há três razões que me levam a fazer esta analogia. A primeira tem a ver com o contágio. Assim como os vírus, as ideias extremistas propagam-se de pessoa para pessoa, não pelo ar, água ou contacto direto, mas essencialmente através das redes sociais, pois são o meio ideal para a sua proliferação
A segunda razão prende-se com os fatores de risco, uma vez que existem condições que tornam certas populações mais recetivas a discursos extremistas. Estamos a falar da desigualdade económica e social, do baixo nível de educação, da falta de integração de populações imigrantes - enfim, tudo aquilo que pode gerar incerteza, medo, desencantamento e, em última instância, raiva.
Por último, temos os sintomas e consequências. A presença desses movimentos leva a um aumento do discurso de ódio, desinformação, mentira, polarização social e violência política, o que contribui para a erosão das instituições democráticas. Erosão essa que é, na realidade, o grande objetivo dos partidos de extrema-direita.
Chegados a este ponto, poder-se-á perguntar: haverá algumas medidas adotadas no âmbito da saúde pública que se possam utilizar para conter o vírus extremista? Sem me querer alongar demasiado, creio que há três áreas onde é preciso atuar: na prevenção, no tratamento e na imunidade de grupo.
A prevenção passa por reduzir os fatores de risco - o medo, a desilusão e o desencantamento - o que exige não só políticas que atuem sobre as causas mas também por uma adequada gestão de expectativas.
Por outro lado, quando certas populações estão particularmente infetadas pelo vírus radical, podem ser levantadas “cercas sanitárias”. Foi, por exemplo, o que aconteceu em França onde a Nova Frente Popular de Mélenchon articulou esforços com o Juntos do presidente Macron para criar uma cerca em torno da União Nacional de Le Pen e Bardella.
O tratamento do coronavírus SARS-CoV-2 assumiu várias formas: nos casos ligeiros, atuou-se sobre os sintomas, tomando paracetamol; nos casos mais resilientes foi necessário administrar medicamentos antivirais; já as situações mais graves obrigaram a internamento.
No caso do “tratamento” a dar às ideias de extrema-direita, há também que atuar com diferentes níveis de intensidade, tudo dependendo da gravidade do caso. Isto apesar de a sociedade democrática em que vivemos não estar aberta a certos tipos de “tratamentos”, preferindo quase sempre a “via do paracetamol”.
Por último, há que apostar na imunidade de grupo. A construção de sociedades resilientes através do fortalecimento da coesão social e o diálogo intercultural são, sem dúvida, importantes. Mas é preciso também utilizar “vacinas” que se traduzam em políticas efetivas, e não apenas que esvaziem os argumentos clássicos do discurso radical da direita: a corrupção, a insegurança, a imigração...
Em suma, a propagação rápida de ideias que fragilizem e corroam o nosso “corpo” (leia-se, a sociedade democrática e liberal em que vivemos) resulta de uma espécie de vírus que se instala nas sociedade e que encontra terreno fértil para se disseminar através das redes sociais (e não só) junto daqueles que estão mais fragilizados: os descontentes com a vida.
Será que a forma como vamos lidando com as pandemias poderá servir de inspiração para a defesa da democracia? Se uma das sugestões que aqui deixei servir para alguma coisa, a leitura deste artigo já valeu a pena.
Professor da Porto Business School