A pedra na sandália: lavagem de dinheiro

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Desde o escândalo do Banco Ambrosiano na década de 1980, do qual o Banco do Vaticano era acionista maioritário, que os escândalos e as supeitas de envolvimento no branqueamento de capitais têm vindo a perseguir a Santa Sé.

O Banco do Vaticano como é conhecido, ou melhor, o Instituto para as Obras da Religião, seu verdadeiro nome, é uma instituição financeira privada sediada na cidade do Vaticano. Fundado em 1942, o seu objetivo é administrar os bens destinados a obras religiosas e de caridade e a instituição aceita depósitos apenas de altos representantes e entidades da Igreja. É dirigido por um presidente, que presta contas a um grupo de cinco cardeais que, por sua vez, reporta ao Vaticano. Há um ano, a revista Forbes chamava-lhe "o banco mais secreto do mundo", já que quase nada se sabe sobre as operações e transações de rotina da instituição.

Há anos que a Santa Sé trabalha para atingir os padrões europeus ao nível da luta contra a lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo, tentando limpar a sua imagem de "paraíso fiscal" e juntar-se à chamada "lista branca" dos Estados que reprimem a fraude fiscal.

Um objetivo que ganhou nova dimensão em 2010, quando em Setembro, a Procuradoria de Roma congelou 23 milhões de euros das contas do Banco do Vaticano e lançou uma investigação contra dois dirigentes da instituição por suspeita de branqueamento de capitais. O dinheiro acabou por ser libertado e as acusações não avançaram formalmente, mas o escândalo foi suficiente para o Vaticano aprovar a primeira legislação contra o branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, tendo o papa Bento XVI criado a Autoridade de Informação Financeira (AIF) do Vaticano para que o mais pequeno estado do mundo pudesse colocar-se em conformidade com as normas internacionais relativamente a esta matéria.

Em Janeiro do ano passado e de acordo com recomendações europeias esta legislação foi revista e atualizada. Mas as suspeitas e as investigações policiais continuaram. Em Março, o banco norte-americano JP Morgan anunciou ao Vaticano que ia encerrar a respetiva conta, justificando a decisão por falta de informações obrigatórias de acordo com a lei contra a lavagem de dinheiro. Aberta em 2009 no JP Morgan, a conta tinha uma característica particular: o dinheiro depositado diariamente era transferido para a conta do Instituto das Obras para a Religião no JP Morgan de Frankfurt, ficando a zeros todos os dias. Num ano e meio foram movimentados mais de 1,5 mil milhões de euros.

Também em março de 2012, e pela primeira vez, o Vaticano entrou para a lista negra dos "centros de lavagem de dinheiro" do Departamento de Estado de Washington, não sendo, no entanto, classificado "de alto risco". No ano passado, a avaliação do Vaticano pelos peritos do Conselho da Europa, que examinam medidas contra a lavagem de dinheiro, revelou que o pequeno Estado só passou em nove das 16 recomendações principais.

Em junho de 2012, o Banco do Vaticano voltava às bocas do mundo. A casa e o escritório de Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do Banco do Vaticano, foram alvo de buscas e Tedeschi foi detido pelas autoridades italianas para ser interrogado.

Finalmente, no início de janeiro, foi a vez do Banco de Itália ordenar a retirada de todas as máquinas ATM do pequeno Estado do Vaticano, temendo que não estivessem a ser aplicadas as regras da União Europeia que previnem a lavagem de dinheiro. Os bancos italianos retiraram-se da cidade, onde foram igualmente bloqueados todos os pagamentos eletrónicos, incluindo a utilização de cartões de crédito.

As suspeições sobre o Banco do Vaticano estão longe de desaparecer e este continuará a ser um dos difíceis trabalhos terrenos do sucessor de Bento XVI.

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