Se já existisse o questionário que António Costa nos trouxe nesta semana e que pretende que o salve de mais vergonhas expostas em praça pública sobre aqueles que vai escolhendo para o acompanharem na maioria absoluta que lidera - pelo menos destas mais visíveis, em que há batota logo na casa-partida, que respeitam à nomeação para cargos de representação pública de pessoas que estão a responder em tribunal por crimes alegadamente cometidos ou que fazem carreira a olear as portas giratórias -, Pedro Nuno Santos nunca teria sido ministro. Ou teria?
É verdade que as perguntas do documento de escrutínio tramavam o agora ex-governante que Costa carregou ao colo desde que o jovem turco se revelou de imprescindível valor para amaciar os radicais da extrema-esquerda que lhe seguraram o governo durante seis dos já quase oito anos que leva a conduzir os destinos deste pobre país. Mas também é um facto que muitas das 36 perguntas incluídas no tal atestado de aldrabice e negociatas prévias foram inspiradas nos feitos dos governantes que nestes 11 meses de governo se foram precipitando com maior ou menor rapidez - ao cúmulo de uma secretária de Estado relâmpago, cujos pecados a ministra que a defendeu durante 25 horas garante agora que desconhecia. E não são propriamente coisas de somenos. São, por exemplo, casos de justiça como a acusação que obrigou António Costa a desistir do homem que puxara a braço-direito ou do assessor também do gabinete do PM que ainda nesta semana foi condenado e depois saiu.
Aos mais cínicos, as histórias vividas nos últimos oito anos farão duvidar da sinceridade de quem se submete à prova e até, por bondade ou compromisso, de quem se prevê que vá corrigir as respostas dos que escolheu apadrinhar no próprio gabinete. E mesmo o medo de serem apanhados na curva de uma declaração falsa é relativo, se pensarmos que o teste de fogo acabará em chamas ou em fanicos, prevendo-se a sua confidencialidade e imediata destruição, fiquem ou não no governo. Se as respostas são sigilosas e acabam em cinzas, quem pode realmente garantir o que nelas foi escrito quando houver barraca? Quem garante o que revelou o convidado e quanto sabia quem fez o convite, para que sejam afinal responsabilizados?
Por outro lado, aos mais cautelosos, a evidência de oito anos de costismo é capaz de fazer desconfiar que um questionário extensivo pouco poderá contra as telhas de vidro que tantos governantes profissionais - aqueles que exibem extensos currículos de nomeação - juntaram sobre a cabeça. Não surgirá uma imprevisível originalidade que manche a folha de serviço mesmo daqueles que à partida conseguem passar no teste do algodão?
Imagine-se agora que o primeiro-ministro não foi forçado por 13 demissões reveladoras de casos, casinhos, vergonhas e alguns escândalos indizíveis em nem um ano da maioria absoluta que menos estabilidade trouxe a um país na História - perdão, 12, que (como Costa faz questão de nos lembrar) houve um secretário de Estado que deixou o governo por razões pessoais e sem carecas para lhe descobrirem. E tomando por boa a intenção do chefe do governo, surge então a questão inevitável: estará António Costa a planear obrigar os seus ministros e secretários de Estado a fazer também o teste do algodão?
Se verdadeiramente quisesse pôr um ponto final na novela venezuelana em que o seu governo se transformou, o primeiro-ministro não hesitaria em passar a prova, no mínimo, pelo Conselho de Ministros, dando ele próprio o exemplo àqueles que escolheu para se sentarem com ele aos comandos do país. Não é que desconfie da sua própria corte, mas toda a gente sabe que onde há fumo há fogo. E neste governo há muito que o ar se tornou, mais do que irrespirável, tóxico.