Robert Sherman, embaixador dos Estados Unidos da América em Lisboa no tempo de Barack Obama, é um apaixonado por Portugal - uma das suas facetas mais conhecidas é ser um fã incondicional da nossa seleção de futebol. Conhecedor da realidade nacional, com a sabedoria de alguém que a olha de fora, afirma que os portugueses são um povo com imensas qualidades, apenas com dois "pequenos" defeitos: falta de ambição e falta de organização.
Curiosamente, neste início de silly season, houve dois acontecimentos que revelam bem que, quando conseguimos ultrapassar aquelas duas debilidades, somos capazes de fazer as coisas muito bem.
1. Seleção feminina de futebol. Apurada pela primeira vez para uma fase final do mundial, a nossa seleção ficou incluída no grupo da morte. Dele faziam parte os EUA, bicampeões do mundo, e os Países Baixos, vice-campeões no último mundial e campeões europeus em 2017. Para um país estreante como o nosso, colocado na 21.ª posição do ranking da FIFA, restava cumprir contra o Vietname para que a presença já fosse considerada honrosa.
Quem assistiu aos jogos sabe que houve muito mais do que "uma presença honrosa". Depois de um jogo contra as neerlandesas onde ainda demonstrámos alguma timidez, veio o Vietname com quem, de facto, cumprimos, a que se seguiu a partida contra a seleção dos EUA. Quem viu esse jogo sabe que os papéis parece que se tinham invertido: as líderes mundiais eram as portuguesas, as norte-americanas apenas uma seleção de segunda categoria.
Sem menosprezar a qualidade individual e coletiva da nossa seleção, nem tão-pouco o trabalho realizado pela equipa técnica e, muito menos, a aposta firme da Federação Portuguesa de Futebol, a verdade é que a campanha da nossa seleção foi bem reveladora de uma enorme ambição. Tanta que, caso tivéssemos passado aos oitavos de final, ninguém diria que foi por sorte ou por simpatia da árbitra.
2. Jornada Mundial da Juventude. Aquele que foi um dos maiores eventos jamais realizados em terras lusas, começou a ser organizado como tudo começa em Portugal: devagarinho, sem grandes alaridos... até que, a poucos meses do encontro, estourou a polémica em torno do custo do palco. A partir daí, qualquer português passou a ser perito em palcos e opinion maker encartado sobre como organizar este tipo de jornadas. Como sempre, os "velhos do Restelo" prognosticaram o apocalipse, um caos completo, quer para quem pretendesse participar, quer para os residentes que não conseguissem fugir de Lisboa nesses dias de balbúrdia.
Afinal, nada disto aconteceu. O Papa Francisco elogiou o nosso país, afirmando que foi a jornada "mais bem preparada" a que assistiu. E o próprio primeiro-ministro salientou que as polémicas em torno de organização tinham sido absurdas, como também o tinham sido sobre a Expo e sobre o Euro 2004.
A verdade é que foi um sucesso em termos de organização, apesar dos sempre omnipresentes velhos do Restelo que surgem também a posteriori (basta ler alguns semanários deste final de semana). Sim, porque nós gostamos de criticar antes, durante e depois. Mas, quando queremos, somos capazes de realizar coisas fantásticas - é certo que à custa de uma certa dose de desenrascanço, sendo os ajustes diretos, em especial por parte da Câmara Municipal de Lisboa, um exemplo disso.
Quando ainda muitos se encontram em período de descanso a ganhar energias para um novo ano de trabalho, deixo aqui estes dois desafios, para mim e para todos os que me leem: sermos mais ambiciosos e mais organizados.
Sabemos que somos capazes. Não podemos é, no dia-a-dia, trabalhar em cima do joelho e contentarmo-nos com "poucochinho". E, principalmente, não atirar sempre com as culpas para cima do Governo, qualquer que ele seja, pois o desafio é de todos.
Carlos Brito, professor da Universidade do Porto - Faculdade de Economia e Porto Business School